31 de mai de 2013

Delegação síria negocia compra de caças em Moscou

DIOGO BERCITO
DE JERUSALÉM
Crise Síria Enquanto a comunidade internacional pressiona a Rússia para que não venda mísseis antiaéreos à Síria, uma delegação vinda de Damasco está em Moscou para negociar a compra de ao menos dez caças russos.
As informações foram divulgadas na sexta-feira (31) pela agência Interfax, que cita uma fonte militar russa a respeito dos termos de venda dos aviões MiG-29 ao regime de Bashar al-Assad.
Ontem (30), o ditador falou à televisão libanesa Al-Manar, controlada pelo grupo extremista Hizbullah. Era esperado, de acordo com o próprio canal, que Assad confirmasse a chegada de um carregamento de mísseis antiaéreos tipo S-300. No entanto, ele se esquivou da pergunta, afirmando somente que contratos com a Rússia estão sendo cumpridos.
Conforme informações obtidas também pela Interfax, a Rússia não deve entregar uma remessa de S-300 à Síria antes de setembro.

Sergei Supinsky/AFP
Fotografia de 24 de abril de 2012 mostra jato MiG-29 da Rússia e munição, no aeródromo de Vasylkiv
Fotografia de 24 de abril de 2012 mostra jato MiG-29 da Rússia e munição, no aeródromo de Vasylkiv
A ansiedade em relação ao S-300 se dá porque esses mísseis, uma vez em posse do regime sírio, dificultariam intervenções externas na Síria. O mísseis S-300 podem interceptar aeronaves tripuladas e mísseis teleguiados.
Israel, no começo do mês, atacou posições próximas a Damasco, de acordo com governos ocidentais, e o governo israelense já sinalizou que, no caso de os mísseis S-300 chegarem à Síria, o país tomará providências para que não sejam colocados em operação.
Será um passo arriscado em relação ao conflito sírio, que já deixou mais de 80 mil mortos e 1,6 milhão de refugiados, nas estimativas da ONU (Organização das Nações Unidas).
A mídia russa relatava hoje, porém, que o carregamento de S-300 só chegaria a Damasco no início de 2014, contrariando os boatos de que já foi entregue. A agência de notícias AFP afirma que o contrato, no valor de US$ 1 bilhão, foi firmado em 2010.
Com Reuters

29 de mai de 2013

Maior aeronave da Boeing pousa pela 1ª vez no Brasil em Viracopos

747-8F fez pouso teste para que aeroporto receba autorização da Anac.
Segundo a empresa, cargueiro é o maior do mundo em comprimento.

Do G1 Campinas e Região
Maior aeronave da Boeing pousa pela 1ª vez no Brasil em Viracopos (Foto: Leandro Filippi/G1)Boeing 747-8F fez pouso teste para que Viracopos o receba com frequência (Foto: Leandro Filippi / G1)
O maior avião cargueiro do mundo, em comprimento, pousou pela primeira vez no Brasil, nesta terça-feira (28), no Aeroporto Internacional de Viracopos. O pouso do Boeing 747-8F, que ocorreu às 13h35 em Campinas (SP), é uma das etapas para que o terminal seja autorizado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a receber esse modelo de aeronave com frequência.

Ficha técnica do Boeing 747-8F
Envergadura 68,4 m
Comprimentro 76,3 m
Largura interior da cabine 6,1 m
Diâmetro 649 cm
Fonte: Boeing
Para que o pouso fosse realizado, foram necessárias adequações na pista, na sinalização, nos equipamentos de navegação aérea, além do aumento da capacidade do reservatório de água de Viracopos para 32,3 mil litros. Segundo a Boeing, o 747-8F tem 76,3 metros de comprimento, sendo considerado o maior do mundo.

O modelo possui ainda 19,4 metros de altura e transporta 135 toneladas. Em todo mundo existem 41 aviões semelhantes, sendo 35 cargueiros e outros seis que também transportam passageiros, segundo a assessoria da Boeing.

O diretor-presidente da concessionária Aeroportos Brasil Viracopos, Luiz Alberto Küster, disse que a expectativa é que na próxima semana a Anac habilite o aeroporto a receber o 747-8F em definitivo. Um relatório sobre o pouso será enviado para a agência.

A Anac informou que nenhum aeroporto brasileiro está autorizado, em definitivo, a operar o Boeing 747-8F. De acordo com o diretor de Operações da concessionária, Marcelo Mota, duas companhias de cargas que atuam em Viracopos possuem esse tipo de aeronave, a Atlas e a Cargolux.

Airbus A380
Segundo a Anac, outro grande avião que nenhum aeroporto brasileiro pode receber é o Airbus A380, usado para transporte de passageiros. Viracopos necessita de melhorias para habilitar a operação desse modelo de aeronave.

"Nós temos algumas alterações a serem executadas", resumiu o diretor-presidente da concessionária. A previsão é que após a entrega do novo terminal de passageiros, prevista para maio de 2014, Viracopos tenha condições de recebê-lo.
Cabine do Boeing 747-8F, que pousou pela primeira vez no Brasil (Foto: Leandro Filippi / G1)Cabine do Boeing 747-8F, que pousou pela primeira vez no Brasil (Foto: Leandro Filippi / G1)
 

28 de mai de 2013

São Paulo supera Rio em ranking turístico da América Latina

O primeiro e o segundo lugaressão ocupados, respectivamente, pela Cidade do México e por Buenos Aires

AE
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São Paulo está entre as três cidades da América Latina que mais devem atrair turistas em 2013, com expectativa de receber 2,4 milhões de visitantes internacionais. É o que aponta o Índice Mastercard de Destinos Globais. O primeiro e o segundo lugares do ranking são ocupados, respectivamente, pela Cidade do México, que deve receber 3,1 milhões de turistas, e por Buenos Aires, com 2,6 milhões de visitantes.

Lima deve receber 1,8 milhão de turistas, seguida de San José e Rio de Janeiro (com 1,4 milhão cada), Bogotá (900 mil), Montevidéu (700 mil), Quito (600 mil) e Caracas (500 mil). Ao todo, os dez principais destinos da região esperam a visita de 15,4 milhões de turistas de outros países neste ano.

A capital paulista é a segunda cidade com maior crescimento do número de visitantes estrangeiros, com alta de 10,7% em 2013 ante 2012. Só Lima deve ter um crescimento maior, de 12,7%.

"Extrapolando as taxas médias de crescimento anual entre 2009 e 2013, a cidade de São Paulo pode ultrapassar a Cidade do México e Buenos Aires em 2017 e a cidade de Lima pode ultrapassar Buenos Aires em 2018", avaliou o autor do relatório e assessor econômico global da Mastercard, Yuwa Hedrick-Wong.

Os gastos dos turistas somados em São Paulo, Buenos Aires e Cidade do México devem representar mais da metade dos US$ 14,7 bilhões a serem contabilizados em toda América Latina neste ano. Na análise por gastos, São Paulo ficou no primeiro lugar da lista, ultrapassando a até então primeira colocada, Buenos Aires. A estimativa é de que aqueles que visitarem a capital paulista neste ano deixem um total de US$ 2,9 bilhões na cidade.

Destinos

O principal destino dos viajantes latino-americanos são os Estados Unidos. Só neste ano, Miami deve receber 992 mil turistas de São Paulo, Caracas e Buenos Aires. A expectativa é de que aqueles que viajarem partindo da capital paulista gastem US$ 914 milhões em Miami. Já Nova York deve receber 733 mil visitantes de São Paulo e 393 mil de Buenos Aires.

Globalmente, Bangcoc é a cidade que deve atrair o maior número de visitantes internacionais neste ano, seguido por Londres, Paris, Cingapura, Nova York, Istambul e Dubai.

27 de mai de 2013

Governo pagou R$ 294 milhões a empresas de 'lista suja'

TAI NALON
DE BRASÍLIA
O governo federal gastou, de 2012 até o início do mês, R$ 293,5 milhões com 79 empresas que constam de uma "lista suja" feita pelo seu principal órgão de controle.
São firmas de segurança, tecnologia, consultoria, engenharia, comunicação, entre outras atividades, e que receberam, só nos quatro primeiros meses de 2013, R$ 14,2 milhões, segundo levantamento da Folha no Portal da Transparência do governo.
Editoria de Arte/Folhapress
A "lista suja" é feita pela Controladoria-Geral da União (CGU) e existe para tentar impedir a participação de prestadores de serviços que cometeram irregularidades em licitações e convênios. Isso se verifica em geral quando elas não realizaram o serviço previsto em contrato.
Órgãos públicos de qualquer natureza só podem manter contratos com empresas inidôneas nos casos em que a interrupção dos serviços é considerada mais prejudicial à administração pública do que sua continuidade.
No entanto, embora haja orientação, não há legislação que determine que um contrato que está vigente seja cancelado caso a empresa vire inidônea pela CGU. É nesse argumento que se amparam alguns ministérios questionados pela reportagem.
Em 2011, reportagem da Folha mostrou que o governo ignorava essa lista. Na ocasião, identificou, entre um total de 46, cinco casos de empresas consideradas inidôneas, punição mais grave prevista pela legislação, que continuaram recebendo pagamentos.
Agora, entre as 79, seis delas são consideradas inidôneas e embolsaram, desde 2012, R$ 24,5 milhões. As demais foram punidas com suspensão e impedimento de firmar contratos por prazos que chegam até 2016.
O número pode ser maior, já que o levantamento se restringiu a alguns tipos de serviço pontuais, em geral prestados a órgãos do governo.
CONTRATOS
Considerada inidônea, a empresa DVT Engenharia Ltda., do Distrito Federal, embolsou no período R$ 10,8 milhões em repasses do Ministério da Defesa.
Também no Distrito Federal está a Aliança Empresarial Engenharia Ltda., que recebeu R$ 8,8 milhões do Ministério da Educação. Ela é responsável, entre outras obras, pela construção de novas unidades no campus da Universidade de Brasília.
A Tao Marketing e Comunicação Ltda., do Distrito Federal, também na "lista suja", firmou contratos com vários ministérios, entre eles o da Agricultura e o da Educação, além da Presidência. São vários valores, que totalizam embolso de R$ 3,1 milhões.
A RNR Consultoria de Engenharia Ltda., a Thalentos Engenharia Ltda. e a ITS Tecnologia e Serviços em Segurança Ltda. também firmaram contratos com vários ministérios (veja quadro acima).
Os valores de cada contrato são, em geral, pequenos. Mas, como vários órgãos do governo contratam empresas que receberam sanções menores, o repasse total tende a ser maior.
Uma empresa de terceirização de mão de obra, por exemplo, juntando os seus contratos com várias instâncias do governo, recebeu, de 2012 para cá, R$ 32,6 milhões.

Pedro Ladeira/Folhapress
Obra na Universidade de Brasília realizada pela Aliança, que consta na 'lista suja' da Controladoria-Geral da União (CGU)
Obra na Universidade de Brasília realizada pela Aliança, que consta na 'lista suja' da Controladoria-Geral da União (CGU)
OUTRO LADO
A maior parte dos órgãos federais afirma que os contratos firmados antecedem a oficialização do banimento. Por isso, dizem que não há impedimento legal em repassar dinheiro.
Segundo o Ministério da Educação, não há irregularidade nos pagamentos porque as datas de início das sanções às empresas são posteriores às dos contratos.
O ministério informou que as universidades que firmaram contratos com as empresas ITS, Thalentos e Aliança têm autonomia e respondem diretamente aos órgãos de controle. Sobre a Tao, o valor se refere a "recolhimento de impostos".
O Ministério da Defesa afirmou que não existe contratação da administração central da pasta com as empresas Thalentos Engenharia e DVT Engenharia no período.
A Presidência da República afirmou que a Secom [Secretaria de Comunicação Social da Presidência] tem contrato com três agências de publicidade que passaram por licitação, mas a Tao Marketing não está entre elas.
O Ministério dos Transportes disse que o registro negativo é impeditivo para firmar novos contratos, mas aqueles em vigor continuam válidos. O Ministério da Agricultura declarou que cancelou as solicitações de serviço da Tao Marketing e que os pagamentos se referem a contratos vigentes.
A Folha entrou em contato com a Aliança Empresarial Engenharia, mas não obteve resposta. A reportagem não conseguiu localizar representantes em telefones e endereços da DVT Engenharia, da Tao Marketing e Comunicação, da RNR Consultoria de Engenharia, da Thalentos Engenharia e da ITS Tecnologia e Serviços em Segurança. (TN)

26 de mai de 2013

As patentes militares

Por Márcio Cotrim


Quase todos os países possuem Forças Armadas. No continente americano, só a Costa Rica as extinguiu, nos anos 1950, e, apenas em algumas pequenas nações, elas também não existem. As forças desarmadas, que representam o poder civil, amplamente majoritário, é que dirigem o destino dos países democráticos.
Essa peculiar condição tem dado, ao longo dos anos, pretexto para agudas discussões. Há quem diga, por exemplo, que elas custam caro e, em contrapartida, formam um contingente cujo objetivo precípuo é estudar guerra e suas decorrências e nem sempre aplica esses conhecimentos porque não há guerra a guerrear. Contudo, uma cabal justificativa: defende a existência delas com “Si vis pacem, para bellum” “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”.
Em sua estrutura operacional, os militares estão organizados em patentes, cada qual com seu berço próprio, quer ver?
Patente vem do latim patere, tornar público, indicando em que grau se encontra o militar na hierarquia. Já soldado tem berço no italiano soldato,  aquele que recebe soldo.
Cabo, por sua vez, se origina do latim caput, cabeça, no sentido de que é “pessoa que chefia”. Hoje em dia, o cabo não manda muito, mas pode consolar-se lembrando que Napoleão Bonaparte era chamado, com afeto, de le Petit Caporal, o pequeno cabo. Ele foi cabo no exército numa época em que muitos já começavam a carreira militar com patente de oficial recebida por méritos de parentesco, ou até de pura e simples compra, imagine você.
Sargento vem do latim servire, servir, atender, ajudar. De início, sua atividade era mais a de um criado, posição relativamente parecida com a de hoje. Tenente tem berço no latim tenere, manter, segurar, firmar. É alguém de confiança que garante a manutenção do lugar, da situação, do cargo na ausência do seu titular.
Capitão vem do latim caput, cabeça, aquele que manda em sua tropa. Major também tem origem no latim major (pronunciava-se máior), aumentativo de magnus, grande. Coronel vem do italiano colonello, o indivíduo comandava uma colona, ou seja, uma coluna de soldados. Atualmente, o coronel tem atribuições bem mais elevadas do que comandar uma coluna.
General vem do grego gignomai, eu nasço, passando pelo latim genere, gerar, referente à liderança da tribo inteira, chegando a geral em português, espanhol, inglês e francês. Já generalíssimo é um posto em geral associado a republiquetas — caso do ditador Rafael Leônidas Trujillo, manda-chuva da República Dominicana, uma espécie de fazenda de sua propriedade, a começar pelo nome que deu à capital do país, Ciudad Trujillo...
Outras patentes como marechal, anspeçada, comodoro, furriel, ordenança, brigadeiro e almirante vão merecer menção e explicação em outra coluna, mas desde já fica a lembrança de que, em todos os níveis aqui enunciados, seus titulares são gente idealista a serviço da pátria — com as devidas exceções que confirmam a regra…
ARSENAL — Essa palavra tem seu berço no árabe dar as-sina’ah e no italiano arzenale, literalmente casa de manufatura, local onde são guardados petrechos de guerra ou onde os navios atracam para recebê-los. O nome foi usado pelos venezianos no século 16, para uma praia onde se fazia carga e descarga de navios, e ficou consagrado como fábrica de armas e munições de guerra, e também centro de construção e reparo dos navios de guerra. Construído e pronto, o navio é incorporado a uma esquadra, da qual faz parte a mostra de armamento, que nada tem a ver com armas, e sim com armação. A armação corresponde à expressão armar um navio, provê-lo do necessário à sua utilização, e quem faz isso é o armador. Um dos mais conhecidos armadores do mundo foi o provedor de navios e navegador Américo Vespucci, cuja influência foi maior que a do próprio descobridor do Novo Mundo e que passou a ser conhecido como América, em vez de Colúmbia, como seria de maior justiça a Cristóvão Colombo. Aliás, muita gente que viaja aos EUA diz que vai à América, grande bobagem, pois se esquece de que nesse continente existem mais de 50 países. Coisas de desinformados e deslumbrados…

25 de mai de 2013

A Embaixada do assédio

Como o ritual de cantadas, gritarias e desrespeito mantido pelo cônsul Américo Fontenelle transformou o consulado do Brasil na Austrália num ambiente indecente e insuportável

Liz Lacerda, de Sydney, e Claudio Dantas Sequeira, de Brasília

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Era mais uma manhã comum de trabalho para Viviane Jones, auxiliar administrativa do Consulado-Geral do Brasil em Sydney, Austrália. Por volta das 11h, enquanto ela estava concentrada trabalhando, uma pessoa chegou sorrateiramente por trás, beijou-lhe o rosto e sussurrou em seu ouvido. “Sua linda”, disse. Era seu chefe, o embaixador Américo Dyott Fontenelle. Atitudes como esta já não eram mais surpresa. Outra vez, na recepção, enquanto Viviane atendia um visitante, o embaixador se aproximou e cochichou em seu ouvido. “Estou louco para te dar um beijo”, disse. Nesse mesmo dia, ela ouviu dos colegas algo revelador da personalidade de Fontenelle que a assustou ainda mais. O embaixador, segundo os relatos, falava dela em reuniões, comentava de suas roupas, do perfume e até da maquiagem. “Dizia que ficava imaginando o que estava debaixo da minha blusa, da minha saia e ainda falou que os australianos ficavam loucos comigo na recepção”, lembra. Dias depois, Viviane foi até a cozinha pegar um café. Os copos descartáveis haviam acabado. Ela se abaixou para procurá-los em uma das gavetas do armário, quando foi surpreendida por uma voz masculina. “Nossa, Viviane, você está em uma posição muito sugestiva”, disse Fontenelle. A funcionária, de 37 anos, separada e mãe de um garoto de 11, vestia uma calça social preta e uma blusa da mesma cor. A cantada de mau gosto foi testemunhada por outro funcionário, Luiz Neves, responsável pelo setor comercial e de investimentos. “Ele deixou a porta aberta e ouvi o que disse”, afirmou Neves à ISTOÉ. A funcionária estava se achando indefesa. “Foi o momento em que senti mais medo”, desabafa.

Os acontecimentos afetaram a vida pessoal de Viviane, que se tornou agressiva em casa e passou a ter crises de ansiedade e insônia. O medo de perder o emprego a fez ficar em silêncio por muito tempo.
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LASCÍVIA
Sob a gestão de Américo Fontenelle (acima), o Consulado-Geral
do Brasil em Sydney, na Austrália, virou palco de vulgaridades
O dia 24 de janeiro foi o limite. Era uma quinta-feira, Viviane estava atendendo no balcão quando o cônsul-adjunto, Cesar Cidade, a repreendeu por se desculpar com o público do consulado pela falta de etiquetas para passaportes. “Pare de se humilhar para esses australianos filhos da puta, porque brasileiro gosta de dar o rabo para os australianos”, gritou Cidade. Ela teve uma crise de choro e se trancou no banheiro por meia hora. Saiu dali convicta de que tinha de pôr um basta naquela situação. Foi o que fez. Escreveu ao Itamaraty uma denúncia sobre o comportamento de seus chefes e encaminhou cópias à Chancelaria australiana e à Comissão de Direitos Humanos do Parlamento local. A partir daí, outros colegas aderiram à denúncia. Pressionado, o Itamaraty foi obrigado, meses depois, a abrir um processo administrativo disciplinar e, finalmente, afastou Fontenelle e Cesar Cidade de suas funções até conclusão da investigação.

Apesar do sigilo que envolve o caso, as vítimas dos diplomatas resolveram contar tudo à ISTOÉ. Os detalhes chocantes mostram como Fontenelle conseguiu transformar a rotina consular num ritual de abusos contra seus subordinados. Além de se esfregar nas funcionárias, o embaixador perseguia, violava a intimidade, tinha acessos de fúria e demonstrava prazer em humilhar a todos publicamente.
Em depoimentos reveladores, funcionários do consulado de Sydney contam
como agiam o cônsul Américo Fontenelle e seu número 2, Cesar Cidade
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Claudia Pereira, que ficou no consulado de abril a novembro de 2012, pediu demissão após as constantes ameaças e cantadas indecorosas. “Me arrependo de não ter denunciado antes”, disse à ISTOÉ, por telefone, de Goiás, onde passou a semana. De licença médica, ela resolveu vir ao Brasil para ver a família. Descendente de italianos, Claudia conta que certo dia foi trabalhar com uma camisa xadrez com as cores da bandeira da Itália. Em vez de um “bom dia” formal, Fontenelle disse que ela estava vestida de “italianinha” para provocá-lo. As investidas eram frequentes. “Uma vez ele pediu para eu processar um visto mais rápido. Quando entreguei, ele veio e disse: ‘Quando você é tão eficiente me dá vontade de te dar um beijo’. Eu senti nojo, tive vontade de reagir, mas acabei me calando para manter o emprego.
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Ailan Lima, 46 anos, funcionário do consulado há 28 anos, diz que nunca trabalhou com diplomatas como Fontenelle e Cidade. “São os piores. Já tivemos chefes nervosos, mas é a primeira vez que chegamos ao ponto de todos os servidores se unirem para combater a chefia”, disse. Outra vítima de Fontenelle, Luís Aroeira Neves, 39 anos, foi parar no hospital depois de uma discussão com o cônsul-adjunto Cesar Cidade, que repetia o comportamento de Fontenelle. “Estávamos comemorando na cozinha, na hora do almoço, a decisão do STF de legalizar a união civil homoafetiva. Cesar Cidade entrou aos berros, colocou o dedo na minha cara e disse que ali não era lugar para comemorar esse tipo de coisa, que fôssemos fazer isso no botequim”, lembra. Neves foi quem testemunhou a investida de Fontenelle na cozinha contra Viviane Jones.

Os abusos levaram o oficial de chancelaria Alberto Amarilho, vice-cônsul, a se aliar ao grupo. “Diante de tudo isso, você se sente um babaca. Via o sofrimento dos funcionários locais. Então, fiquei me achando covarde e conivente”, lembra. Cidade chegou a chamá-lo de “filho da puta”, porque ele deixou farelos de pão na tostadeira da cozinha. O comportamento de Fontenelle e Cidade refletiu na piora do trabalho do consulado. A rotina diária se transformou num inferno. Amarilho foi o único funcionário de carreira do Itamaraty a apoiar formalmente as denúncias dos contratados locais. Ele escreveu e-mail para cinco diplomatas da Comissão de Ética do Ministério, se posicionando a favor da abertura do processo administrativo disciplinar.
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Mesmo vedado por todos os códigos de conduta da administração pública e passível de enquadramento civil e penal, o comportamento do diplomata é tolerado no Itamaraty. “Nos meus 18 anos no Ministério das Relações Exteriores, testemunhei um mecanismo contaminado pelo ritual do assédio”, revela o diplomata André Costa, cônsul-adjunto do Brasil em Sydney. Segundo ele, os excessos funcionariam como “uma espécie de medida da lealdade dos funcionários a seus chefes”.

Como se sabe, Fontenelle é reincidente. Antes de Sydney, chefiou o Consulado-Geral de Toronto, no Canadá, onde foi denunciado, investigado e absolvido. A brasileira Vanice Lopes, hoje com 40 anos, lembra com angústia dos momentos na embaixada. “Isso mexe com nosso lado de mulher, de mãe e esposa.” Um dia o embaixador a chamou no arquivo. Ao entrar, ele ordenou “tire a roupa”. Ela saiu correndo, enquanto ele gargalhava.
Servidores do consulado em Toronto confirmam rotina de imoralidades
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O embaixador sentia-se seguro no corporativismo do Itamaraty e em suas relações políticas – uma em especial, com José Dirceu, de quem foi assessor especial no tempo de ministro da Casa Civil. “Ele falava que tudo o que fez de bom na vida pública foi graças a Zé Dirceu”, lembra Georges Cunningham Jr., que cuidava do setor de promoção comercial do consulado em Toronto. A relação do embaixador com Dirceu garantiu um cargo comissionado para seu filho Henrique Fontenelle, nomeado assessor internacional do ministro do Esporte, Orlando Silva (PCdoB).

Se não se pode afirmar que Fontenelle recorreu a Dirceu para livrá-lo há cinco anos das acusações em Toronto, é certo que o Itamaraty não fez nenhum esforço real. Agora, ao nomear o ministro de segunda classe Roberto Abdalla para investigar o caso, o chanceler Antônio Patriota deu demonstrações de que o empenho segue tímido. Mais novo e hierarquicamente inferior ao investigado, Abdalla é como um coronel investigando um general. Talvez por isso, ao chegar a Sydney, tentou convencer os funcionários de que “o que era assédio na cultura australiana não era na cultura brasileira”.

24 de mai de 2013

Avião paquistanês desviado por caças militares pousa em Londres

Razão da mudança de rota ainda não foi informada

AFP e Terra
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Um avião comercial paquistanês pousou nesta sexta-feira no aeroporto londrino de Stansted depois de ter sido desviado de sua rota por caças militares enviados para investigar um incidente a bordo.

Ainda não foi informada oficialmente a razão do desvio de rota. Uma fonte de segurança britânica disse que as primeiras indicações sugerem que o avião não foi alvo de um ataque terrorista, mas há informações de que a polícia de Essex prendeu duas pessoas após o pouso da aeronave em Stansted por suspeita de "colocar em risco um avião".

O pouso foi anunciado pela polícia de Essex, enquanto o aeroporto de Manchester informou que o incidente envolveu um avião da companhia Pakistan International Airlines que seguia para esta cidade do noroeste da Inglaterra.

A rede de TV Sky informou que o avião tinha 297 pessoas a bordo.

O incidente aéreo acontece dois dias após um soldado ter sido assassinado em uma rua de Londres, num ataque considerado pelo governo como um ato terrorista.

23 de mai de 2013

Soldado é morto em possível ataque terrorista em Londres

Testemunhas dizem que suspeitos gritaram "palavras de ordem próprias de fundamentalistas islâmicos"

AFP
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Dois homens mataram um soldado britânico nesta quarta-feira utilizando armas brancas em um bairro do sudeste de Londres e, segundo testemunhas, gritaram palavras de ordem próprias de fundamentalistas islâmicos antes de serem feridos e detidos pela polícia.

É um "ato bárbaro que ocorreu hoje, um ataque horrível registrado no subúrbio de Londres" e um "incidente que é claramente de natureza terrorista", declarou David Cameron durante uma entrevista coletiva à imprensa no Eliseu ao lado do presidente francês, François Hollande.

"Expresso toda a minha solidariedade a David Cameron e ao Reino Unido, após o covarde assassinato de um soldado britânico", disse François Hollande.

"Devemos lutar contra o terrorismo em todo lugar, o que supõe trocarmos nossas informações, trabalharmos com nossos respectivos serviços de inteligência e agirmos em todos os lugares", acrescentou o chefe de Estado francês.

Os detalhes do ataque efetuado em plena luz do dia, nas imediações de uma caserna militar em Woolwich começavam a vir à tona no final da tarde.

"Devemos combatê-los como eles nos combatem: olho por olho, dente por dente", gritou um dos dois agressores vestido com uma calça jeans e um casaco e usando um boné, em um filme amador obtido pela rede de televisão ITV. "Juramos por Alá, o todo-poderoso, que nunca vamos parar de combatê-los", acrescentou uma voz possessa, em um inglês com forte sotaque londrino.

"Lamento que mulheres tenham sido testemunhas do que aconteceu hoje, mas em nosso país, nossas mulheres veem o mesmo tipo de coisa", disse ainda o jovem negro que levava duas facas e um cutelo ensanguentados.

De acordo com testemunhas, este homem e seu cúmplice pediram que as pessoas no local filmassem a cena na qual continuavam a esfaquear o corpo da vítima. Algumas afirmaram que eles se preparavam para decapitá-la.

Elas também disseram ter ouvido os agressores gritando "Allahu Akbar" (Deus é grande, em árabe).

Em viagem a Bruxelas e Paris, David Cameron imediatamente pediu à ministra do Interior, Theresa May, que convocasse uma reunião de crise do Comitê Cobra, formado por ministros e autoridades de segurança.

Antes disse, May afirmou que tinha recebido informações sobre o "brutal assassinato" por meio de autoridades do serviço de segurança interna, o MI5.

"Acreditamos que a vítima é um soldado. Não sabemos a circunstâncias do ocorrido", havia declarado à imprensa à tarde o deputado por Woolwich e Greenwich, Nick Raynsford.

A Scotland Yard se limitou a confirmar que policiais tinham usado suas armas para neutralizar dois suspeitos do assassinato de um homem não identificado, que deram entrada em dois hospitais londrinos diferentes.

De acordo com a imprensa, um deles está em estado grave.

"Sofremos ataques deste tipo antes em nosso país e nunca esqueceremos", afirmou o primeiro-ministro aos britânicos.

"Temos que lembrar que em um país livre como o nosso, a melhor maneira de derrotar o terrorismo é continuarmos com nossas vidas normalmente, e mostrar que os terroristas nunca poderão nos vencer", acrescentou.

A imprensa indica que este é o primeiro "atentado terrorista" islamita com morte desde os ataques de 7 de julho de 2005 contra a rede de transporte de Londres, que deixaram 52 mortos, sem contar os quatro terroristas.

22 de mai de 2013

Balanço aponta que tortura da ditadura é anterior à luta armada

Pesquisa indica que prática era recorrente já em 1964

Terra
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Parte da pesquisa - ainda parcial - sobre torturas na Comissão Nacional da Verdade (CNV) aponta a prática como instrumento de interrogatórios desde o primeiro ano do regime militar. A pesquisadora Heloísa Starling, que assessora o grupo, refuta a tese de que as torturas se iniciaram após o Ato Institucional 5, que endureceu o regime e a repressão, em 1968. "A tortura está na origem da ditadura, antes da luta armada", afirmou a pesquisadora.

Segundo o levantamento da pesquisadora, ainda em fase de elaboração, a maior parte das torturas ocorria em quartéis das três Forças Armadas. Apesar de registros, os centros policiais eram palcos menos recorrentes.

O Estado com maior concentração de centros de torturas na década de 1960 era o Rio de Janeiro. A pesquisa identificou outros centros na Bahia, em Goiás, em Minas Gerais, em Pernambuco, no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

Em relação a dados quantitativos, o ano do golpe militar de 1964 começa com um volume maior de torturados (148), seguido de uma redução - que revela uma continuidade na prática - e registra uma alta exponencial em 1969 (1.027).

A Comissão Nacional da Verdade identificou nove tipos de tortura recorrentes nos quartéis durante o período da ditadura militar (1964-1985), dentre elas o pau de arara (barra de ferro atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos, pelos quais o torturado é suspenso de cabeça para baixo), choques elétricos e o telefone (golpes simultâneos na região das orelhas, de modo a afetar os tímpanos do torturado).

21 de mai de 2013

Sete brasileiros seguem internados após acidente de balão na Turquia

Segundo o Itamaraty, um dos brasileiros feridos já teve alta.
Três brasileiras morreram após choque entre balões na Capadócia.

Do G1, em São Paulo
Sete brasileiros que ficaram feridos em um acidente de balão na Capadócia, Turquia, ocorrido nesta segunda-feira (20) seguem internados em hospitais da região, segundo informou o Itamaraty nesta terça-feira (21). A condição dos feridos é estável, de acordo com o órgão. Um oitavo brasileiro ferido no acidente já teve alta.
Três brasileiras morreram na queda do balão. São elas Maria Luiza Gomes, Marina Rosas e Ellen Kopelman, todas do Rio de Janeiro. Elas eram amigas e haviam viajado juntas para a Turquia.
De acordo com o Itamaraty, uma equipe da embaixada brasileira em Ancara, capital da Turquia, chegou à Capadócia ainda nesta segunda. No mesmo dia, todos os feridos brasileiros foram visitados. A equipe permanecerá na região para manter contato com as autoridades turcas e dar atendimento aos brasileiros.
O embaixador do Brasil na Turquia, Antonio Luis Espínola Salgado, seguirá nesta terça para a região. Ele também irá visitar os feridos.
Em relação à remoção dos corpos das três brasileiras mortas, o Itamaraty informou que a tramitação para a liberação dos corpos deve ser finalizada nos próximos dias.
Outras 23 pessoas ficaram feridas após o acidente, que envolveu dois balões de turismo, informaram as autoridades locais. Eles bateram em voo, e um deles caiu.
O Ministério das Relações Exteriores disponibilizou dois números de telefone para que brasileiros com parentes na Turquia possam obter informações: (61) 2030-8803 ou (61) 2030-8804. Os contatos também podem ser feitos pelo e-mail dac@itamaraty.gov.br.
Restos do balão acidentado nesta segunda-feira (20) são vistos no chão na região turca da Capadócia (Foto: AFP/Ihlas News Agency)Restos do balão acidentado nesta segunda-feira (20) são vistos no chão na região turca da Capadócia (Foto: AFP/Ihlas News Agency)

20 de mai de 2013

Chega a três o número de brasileiras mortas em acidente de balão na Turquia

Outras 22 pessoas ficaram feridas após choque e queda

AFP
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Três turistas brasileiras morreram e 22 pessoas ficaram feridas nesta segunda-feira na Capadócia, no centro da Turquia, em um acidente de balão, anunciou o governo local.

Ellem Kohelman (76 anos), uma terceira cidadã brasileira, não resistiu aos ferimentos no hospital no final da tarde, aumentando o registro de mortos para três, indica a agência de notícias turca Anatólia.

Antes, o governador da província de Neveshir, Abdurrahman Savas, havia apresentado um registro de duas brasileiras mortas. As vítimas citadas eram Maria Luiza Gomes (71 anos) e Mariua Rosas (65 anos).

As vítimas integravam um grupo de turistas idosos, a maior parte da América do Sul, que passava alguns dias de férias na Capadócia, explicou o governador, citado pela Anatólia.

Dez espanhóis, sete brasileiros, três argentinos, um português e um porto-riquenho ficaram feridos no acidente, segundo a Anatólia.

A Capadócia é uma região com impressionantes paisagens esculpidas nas tufas calcárias.

Segundo Abdurrahman Savas, o balão decolou por volta das 06h00 locais (00h00 de Brasília) de Göreme, no centro da Capadócia.

"De acordo com o depoimento de testemunhas, o acidente foi provocado por uma colisão entre dois balões. O balão que estava acima foi rasgado e caiu rapidamente", explicou Savas.

"Muitos feridos têm fraturas", acrescentou.

O setor dos balões turísticos cresceu muito nos últimos anos na Turquia, principalmente na Capadócia.

No final de 2012, 20 empresas, equipadas com 140 balões, ofereciam este serviço para cerca de 1.400 pessoas, de acordo com estatísticas da Direção-Geral da Aviação Civil (DHGM), citada pelo site especializado em turismo turizm.güncel.com.

Dez anos antes, o número de empresas era de apenas seis com 31 balões.

As autoridades da aviação civil iniciaram uma investigação para esclarecer a causa exata da tragédia, informaram os canais de televisão turcos.

O proprietário do balão que caiu informou que o piloto tinha tomado todas as medidas de segurança necessárias.

"Voos como este são feitos há 20 anos com total segurança na Capadócia", disse Halil Uluer, citado pela agência Anatólia.

Este acidente na Capadócia acontece dois meses após um episódio semelhante em Luxor (Egito), que matou 19 pessoas em 26 de fevereiro. Na ocasião, o balão explodiu.

19 de mai de 2013

Morre a 242ª vítima do incêndio na boate Kiss

Mariane Wallau Vielmo tinha 25 anos e estava internada em Porto Alegre

Mariane Wallau Vielmo tinha 25 anos e estudava Sistemas de Informação na Unifra, em Santa Maria
Mariane Wallau Vielmo tinha 25 anos e estudava Sistemas de Informação na Unifra, em Santa Maria - Reprodução
Morreu neste domingo em Porto Alegre a 242ª vítima do incêndio na boate Kiss, a tragédia que atingiu a cidade de Santa Maria (região central do Rio Grande do Sul) em 27 de janeiro. Mariane Wallau Vielmo, de 25 anos, estava internada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e morreu às 5h15 desta manhã, segundo a Secretaria de Saúde da capital gaúcha.
Mariane era natural da cidade de Santiago e estudava Sistemas de Informação na Unifra, em Santa Maria. Em dois de abril, ela havia publicado no Facebook a primeira mensagem digitada por ela mesma desde a tragédia: “Primeiro dia q consigo escrevrer aqui, estou me recuperando bem...”. Quatro pacientes vítimas da tragédia seguem internados em Porto Alegre.

Incêndio - A tragédia da boate Kiss ocorreu na madrugada de 27 de janeiro. O fogo começou após um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava na casa, utilizar um sinalizador durante um show. A faísca atingiu a espuma que revestia o teto para o isolamento acústico do local, que entrou em combustão e passou a produzir uma fumaça tóxica. A Polícia Civil gaúcha já apurou que o sinalizador utilizado era inadequado para ambientes internos e a espuma era altamente inflamável. O fogo e a fumaça provocaram 234 mortes no local, a maioria por asfixia – outras sete pessoas morreram enquanto estavam internadas em hospitais.

18 de mai de 2013

A farsa boliviana

Gravação comprova que tio e advogado de Kevin Beltrán Espada, morto por um sinalizador no jogo Corinthians e San José há três meses, quer dinheiro para inocentar, em depoimento, os 12 torcedores brasileiros presos na Bolívia

Rodrigo Cardoso
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Em frente ao hotel Eden, na pequena Oruro, cidade a 3.700 metros de altitude, distante 230 quilômetros da capital boliviana, La Paz, há uma arborizada praça, a Plaza 10 de Febrero. Lá, em uma tarde ensolarada do mês passado, o advogado Jorge Ustarez Beltrán, figura de renome na cidade graças aos serviços prestados a senadores e ministros da Bolívia, colocou as cartas na mesa para o advogado brasileiro Sérgio de Moura Ribeiro Marques, contratado pelas famílias para defender os 12 brasileiros presos há três meses em Oruro. Os torcedores foram apontados como responsáveis pela morte do adolescente boliviano Kevin Beltrán Espada, de 14 anos, alvejado por um sinalizador quando assistia a uma partida de futebol entre Corinthians e San José em fevereiro. “Estou consciente de que os 12 não são culpados”, disse Beltrán, tio de Kevin que assessora juridicamente a família, ao advogado brasileiro.
Na praça, a conversa entre os advogados se desenrolou por cerca de uma hora. Nela, o tio de Kevin insiste para que ele e o colega brasileiro trabalhem juntos para libertar os torcedores do Corinthians. Dias depois, em mais uma hora de diálogo, agora em um restaurante, Beltrán abre o jogo de vez e pede dinheiro para contribuir com a soltura dos brasileiros. “Doutor, te digo com muita sinceridade. Se estamos buscando libertar os 12 torcedores, o caminho não é esse que estamos seguindo. Não é pela pressão política, não é um tema diplomático”, afirma. “Se não trabalharmos juntos, não iremos solucionar nem o problema da família de Kevin nem libertar os 12. Praticamente, o que propomos a vocês é acabar de vez com esse processo. Os familiares (do adolescente morto) buscam uma reparação material, civil, e isso poderia ser assumido pelo Corinthians.” Ou seja, ele deixa claro que o caminho a ser trilhado para a libertação dos torcedores não é o da Justiça, mas o do dinheiro.
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ISTOÉ teve acesso aos diálogos mantidos nos dois encontros e que foram gravados por Marques sem que Beltrán soubesse. Neles, os dois advogados costuram o seguinte acordo: o tio de Kevin, segundo Marques, produziria uma petição na qual declararia, entre outros pontos, a inocência dos 12 brasileiros presos pela morte de Kevin. E – mais importante – revelaria que o adolescente boliviano encontrava-se de costas para o campo quando foi alvejado pelo sinalizador. Além de Beltrán, Beymar Jonathan Trujillo Beltrán, primo de Kevin e única testemunha ouvida (em uma declaração de apenas cinco linhas) sobre a morte dele, assinaria o documento que seria incorporado ao processo de investigação. Por ser uma declaração contundente de uma nova testemunha intimamente ligada ao adolescente morto, seria aberta uma grande possibilidade de libertação para os brasileiros. Apesar de não ter se pronunciado legalmente ainda, o tio de Kevin estava no jogo Corinthians e San José.
A contrapartida do testemunho custaria US$ 220 mil – cerca de R$ 400 mil – a serem entregues à família de Kevin (conforme consta da anotação manuscrita por Beltrán acima) e que deveriam ser levantados pelo advogado Marques em 20 dias, assim que ele retornasse ao Brasil. “Esse é o momento adequado (para solucionar o caso), doutor. Mais para a frente, fica complicado... uma vez que se produz a acusação, aí não poderemos introduzir nenhuma prova que não as que o investigador já tenha determinado”, insiste o advogado Beltrán, como revelam as gravações (leia mais à pág. 74). A confissão sobre a real posição de Kevin na arquibancada poderia mudar o rumo da investigação e culminar com a libertação dos brasileiros, de acordo com o perito Ricardo Molina, da Universidade de Campinas. “Considerando-se que os torcedores corintianos estavam à direita de Kevin, se for verdade que o adolescente boliviano estava de costas para o campo, seria impossível que o sinalizador que entrou pelo olho direito e saiu pela jugular esquerda dele partisse da posição onde se encontrava a torcida brasileira”, diz ele.
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REUNIÃO
À esq., o presidente do Corinthians, Mário Gobbi, com familiares dos presos.
Eles não têm ajuda financeira do clube para resolver a questão jurídica.
Abaixo, o advogado Sérgio Marques (em destaque) e o procurador
boliviano Alfredo Canavari (no centro) durante oitiva do menor H. A. M.
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De volta ao Brasil, o Corinthians foi comunicado sobre a possibilidade de fechar o acordo com o tio de Kevin. “Fui informado sobre o fato. Mas o Corinthinas não dará dinheiro em troca de um depoimento do tio”, diz Luís Bussab, diretor do departamento jurídico do clube. O advogado Marques também comunicou o fiscal da promotoria de Oruro, Alfredo Canavari. O promotor boliviano esteve no Brasil no início do mês para uma oitiva com o menor brasileiro H. A. M., que assumiu ter lançado o sinalizador que aparece em algumas imagens na direção dos torcedores bolivianos. “Canavari concordou que eu fizesse o acordo. Ele me disse que, se fosse fechado, o ajudaria a tirar a pressão que vem sofrendo (das autoridades bolivianas)”, afirma Marques.
O depoimento contundente de um parente de Kevin em troca de dinheiro para a família do adolescente morto, juridicamente falando, pode até não significar a soltura imediata dos torcedores. Mas a revelação de que familiares da vítima tentam negociar a morte de Kevin, além de chocante, demonstra desinteresse em que se ache o verdadeiro culpado. “Um sujeito que propõe um acordo e negocia a imagem do parente morto antes de os fatos serem esclarecidos mostra que ele pode ter se omitido em relação à verdade anteriormente”, diz o advogado dos detentos brasileiros. Na gravação, o tio de Kevin diz não ser preciso tornar público o acordo financeiro. “Não necessito que o Corinthians diga que está compensando a família civilmente... tem de fazer um documento de solidariedade, comovido (com a situação financeira dos pais de Kevin), assumindo sua responsabilidade social e (os) repararia”, sugere Beltrán. Procurado por ISTOÉ e questionado se em alguma oportunidade chegou a pedir dinheiro em nome da família de Kevin a algum emissário dos torcedores presos, o tio do adolescente boliviano respondeu: “Formalmente, não.”
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Marques não conseguiu avançar na negociação dos recursos com o Corinthians ao retornar ao Brasil. Pelo contrário, diz que passou a sofrer pressão política por parte do governo brasileiro e do clube paulista para que o escritório Maristela Basso advogados, do qual é sócio, fosse afastado do processo. É o que ele afirmou em entrevista exclusiva à ISTOÉ online na sexta-feira 10: “Querem que nós sejamos destituídos do caso e o governo colha o mérito da possível soltura dos torcedores.” A maioria dos familiares, porém, é contra a saída do advogado. Uma mãe e uma avó de um dos presos disseram que hipotecariam suas casas, se preciso fosse, para pagar os honorários do escritório. Os recursos passaram a ser bancados via empréstimos às famílias pela torcida organizada Gaviões da Fiel, mas por conflitos nos rumos da defesa os pagamentos cessaram.
Membro da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/SP, o advogado Sérgio de Moura Ribeiro Marques, ex-professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), aceitou trabalhar para os familiares dos presos gratuitamente por viver um drama semelhante. Pai solteiro de Tales Porchat de Moura Ribeiro, 11 anos, ele possui a guarda do filho, mas há cerca de três anos concordou com a vontade do garoto de viver um breve período com a mãe, no interior de São Paulo. Desde então, Marques diz sofrer alienação parental e não consegue ter contato com Tales. No dia em que pediu ao pai para ir morar com a mãe, o menino revelou que havia decidido ser corintiano. Marques disse às famílias que sabe quanto é dolorido ter um filho longe e pediu um pagamento inusitado. Ao final do processo, quer que cada torcedor diga ao garoto: “Obrigado, Tales, pois seu pai ajudou a nos tirar de uma situação difícil e ele o fez porque o ama muito.”
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As sérias divergências na condução do caso dos corintianos presos em Oruro podem protelar – e até mesmo complicar – uma possível libertação deles. Na oitiva com o adolescente H. A. M., realizada no início do mês no consulado boliviano em São Paulo, o advogado do menor, Ricardo Cabral, que também trabalha para a Gaviões, não queria que o seu cliente respondesse ao procurador boliviano se sabia onde o sinalizador disparado por ele teria caído, segundo o advogado Marques. Cabral defende a tese de que o menor brasileiro seria o responsável pelo disparo do sinalizador que alvejou o adolescente boliviano. Porém, usar H. A. M. como bode expiatório pode ser um tiro no pé. “A lei penal da Bolívia prega que uma pessoa que tenha participado de um crime, mesmo que não intencionalmente, é julgada como cúmplice”, diz Marques. Ou seja, apenas o fato de um dos corintianos carregar a mochila onde estava o sinalizador, mesmo não sabendo seu conteúdo nem conhecendo H. A. M., já seria indício de cumplicidade aos olhos das autoridades locais.
Para o procurador de Justiça e deputado estadual Fernando Capez, que participou da oitiva no consulado boliviano, há dúvida quanto à trajetória do sinalizador disparado pelo adolescente brasileiro e não é possível afirmar que aquele artefato acertou mesmo Kevin. “A investigação é uma vergonha, não prova nada”, diz ele, que se diz indignado com a postura do Itamaraty. “Sinto que eles estão omissos, não fazem nada de concreto. Tem de fazer pressão diplomática.” Procurado por ISTOÉ, Cabral, o advogado do menor brasileiro, preferiu não se manifestar. Na oitiva, depois de muita insistência, H. A. M. informou que o seu sinalizador teria caído na área verde da arquibancada, a mesma onde ele se encontrava, só que mais adiante. Os assentos do estádio Jesús Bermúdez, em Oruro, estão divididos em três faixas: a mais perto do campo é verde, depois vem a amarela e por fim a vermelha – Kevin estava nesta última. Se isso puder ser comprovado, o depoimento dado pelo menor brasileiro ao procurador boliviano o isenta da culpa da morte de Kevin e, por tabela, os 12 torcedores detidos. “Aquele vídeo que mostra um sinalizador sendo lançado da torcida corintiana não prova nada, nem mesmo que o disparo foi feito pelo menor brasileiro. Se estão usando o vídeo como prova, é chute”, diz o perito Molina.
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SEM PRAZO
O ministro Antonio Patriota, do Itamaraty:
morosidade do governo para libertar os brasileiros
Se o projétil que acertou o olho direito de Kevin e saiu pela sua jugular esquerda partiu da posição onde H. A. M. se encontrava no estádio, Kevin teria de estar agachado e com a cabeça levemente virada para a direita, de acordo com Molina (leia mais no quadro ao lado). Segundo o perito, esta seria a única possibilidade, considerando-se a posição do autor e da vítima, que estava quase protegida por uma tribuna. “É possível que isso tenha acontecido? É. É seguro que tenha ocorrido? Não. Se Kevin estivesse olhando para o campo ou para cima, o projétil teria de vir do alto”, diz Molina. “Não existe exame de necropsia para saber a trajetória do projétil na cabeça da vítima e não se sabe que tipo de sinalizador foi disparado, a força de propulsão e o curso que ele faz. A posição da cabeça do Kevin é determinante para saber a trajetória do sinalizador que o acertou. Não tem como resolver esse caso apenas com os elementos que existem no momento.”
Em resumo, o caso dos brasileiros presos na Bolívia não tem solução técnica. Sem ela, fica a dúvida sobre a autoria do disparo do sinalizador que matou Kevin. E, se não há como provar a culpa dos 12 torcedores do Corinthians, eles têm de deixar a prisão em Oruro. Passou da hora de o governo brasileiro arregaçar as mangas de verdade e, livre de interesses paralelos, priorizar uma solução rápida para a prisão arbitrária de 12 de seus cidadãos que, na Bolívia, vivem dias de criminosos sem sequer terem sido acusados legalmente.
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16 de mai de 2013

Assembleia Geral da ONU condena Assad e apoia transição. Brasil se abstém

Resolução recebeu apoio de 107 dos 193 membros das Nações Unidas

AFP
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A Assembleia Geral das Nações Unidas condenou nesta quarta-feira o governo sírio pela "escalada" na guerra que assola o país e apoiou o papel da coalizão opositora nas negociações para a transição.  A resolução foi aprovada por 107 Estados; 12 votaram contra e 59 preferiram se abster - entre eles o Brasil.

A Rússia foi um dos países que se opôs à resolução, alegando que poderia ser um potencial obstáculo às negociações. No ano passado, 133 países aprovaram uma resolução similiar. Naquele momento a Síria estava no centro dos debates do organismo multilateral.

Estados Unidos, Grã-Bretanha e França se juntaram aos países árabes no apoio à resolução, apresentada pelo Qatar e por outras nações árabes, que manifestaram a sua "indignação diante do rápido aumento do total de mortos".

Segundo a própria Assembleia Geral da ONU, o número de vítimas do conflito é estimado agora em mais de 80 mil, embora um relatório divulgado na terça pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) aponte para um número entre 94 e 120 mil baixas desde março de 2011.

Além da Rússia, China, Síria, Irã e Coreia do Norte estão entre os 12 países que se opuseram à resolução. Entre os que se abstiveram estão, além do Brasil, África do Sul e Índia.

Clamor por transição

A Assembleia "condenou energicamente a contínua escalada no uso de armas pesadas por parte das autoridades sírias", incluindo "mísseis balísticos" contra civis, ressalta a resolução.

Em relação aos esforços políticos para pôr fim à guerra, a Assembleia solicitou às partes que trabalhem pela "rápida implementação" de um comunicado elaborado pelas principais potências em Genebra no ano passado, que detalhava as etapas para um governo de transição.

A resolução considera os opositores da Coalizão Nacional Síria (CNS) "um representante efetivo de que os interlocutores necessitam para uma transição".

A Rússia, que antes da votação tinha enviado um comunicado aos 193 membros da ONU classificando a resolução de "parcial", afirmou que esta "seria um sério obstáculo para as tentativas de levar as partes sírias à mesa de negociações".

No entanto, os países ocidentais apoiaram decididamente a resolução. "As consequências desta crise aumentam, afetando não apenas a Síria, mas toda a região", disse a embaixadora assistente americana Rosemary DiCarlo, acrescentando que o apoio à resolução está em consonância com os esforços pela organização de uma conferência de paz.

15 de mai de 2013

Dilma prorroga a Comissão da Verdade até o fim de 2014

Presidente recebeu membros do colegiado e demonstrou satisfação com o início de interrogatórios; grupo terá mais sete meses de atuação.
Leonencio Nossa / Brasília

A presidente Dilma Rousseff decidiu ontem prorrogar até dezembro de 2014 os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, que investiga crimes políticos cometidos por agentes do Estado entre 1946 e 1988. Instalado há um ano, que se completa amanhã, o grupo atuaria, a princípio, por dois anos e encerraria sua pesquisa em maio do ano que vem.
Em encontro no fim da tarde no Palácio do Planalto com cinco dos atuais seis membros da comissão, Dilma disse ter recebido pedidos de entidades estudantis para prorrogar as investigações. A presidente também demonstrou satisfação com a nova etapa dos trabalhos do grupo, com o início dos interrogatórios de militares envolvidos com a máquina da repressão. Ela disse que "se impressionou" com o depoimento à comissão, na última sexta-feira, do coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou um dos principais centros de repressão política e tortura do País nos anos 1970,0 DOI-Godi de São Paulo. Os membros da comissão aproveitaram para mostrar a Dilma detalhes do interrogatório de Ustra.
A avaliação da presidente é que a "publicidade" dos depoimentos de agentes influentes como Ustra é importante para o esclarecimento do que ocorreu nos porões da ditadura. À comissão, Ustra - reconhecido como torturador pela Justiça de São Paulo desde 2008 ~ tentou reduzir o impacto das perguntas sobre as mortes e torturas que lhe são atribuídas, muitas delas reconhecidas pelos tribunais, usando a estratégia midiática de atacar a trajetória de Dilma em grupos guerrilheiros. Não há registros de que Dilma tenha sido investigada pelo coronel na época ou tenha ficado presa em unidades chefiadas por ele.
Relatório. No encontro de ontem, os integrantes da comissão anteciparam para a presidente resultados de um levantamento dos primeiros 12 meses de trabalho, que será apresentado ao público no próximo dia 21. "Vai haver surpresa", disse Paulo Sérgio Pinheiro, atual coordenador do grupo. ""Vamos oferecer informações concretas". A comissão divulgará um levantamento "quantitativo" e "qualitativo" com informações obtidas por 14 grupos internos de trabalho.
Pinheiro avaliou que o novo prazo da comissão permitirá ouvir um número maior de agentes da repressão e uma análise da grande quantidade de documentos oficiais sobre o período militar obtidos pelo grupo. Ele ressaltou que a comissão irá manter o esforço investigativo atual, como se não tivesse à disposição mais seis meses. Pinheiro observou que na Argentina a comissão montada para investigar crimes da ditadura ocorrida entre 1976 e 1983 durou nove meses. Ele próprio chegou a sugerir um ano de trabalho.
Díálogo. Um dos entraves das investigações do grupo é a negativa das Forças Armadas em abrir os arquivos secretos dos três centros de inteligência - Cenimar (Marinha), Ciex (Exército) e Cisa (Aeronáutica). Em tom diplomático, Pinheiro disse que existe um "diálogo construtivo" com os militares. "É importante dizer que pela primeira vez em 40 anos uma comissão dialoga com os comandos." Ele destaca que a comissão já conseguiu ultrapassar a fase em que os militares insistiam que os arquivos tinham sido queimados - uma inverdade anunciada à exaustão nas últimas duas décadas. "É claro que refutamos a base legal de que todos os documentos foram queimados. Ultrapassamos esse debate legal e caminhamos para o diálogo."
A uma pergunta sobre os documentos relativos à morte de guerrilheiros no Araguaia e nas cidades, no começo dos anos 1970, a parte mais importante do acervo das Forças Armadas, Pinheiro respondeu que, nos últimos meses, os militares atenderam a "Várias demandas precisas de documentos".

14 de mai de 2013

Maduro manda Exército às ruas para combater criminalidade em Caracas

3 mil soldados e policiais começaram a ocupar diversos setores.
Objetivo é aumentar segurança na região.

Da France Presse
Ao menos 3 mil soldados e policiais começaram a ocupar nesta segunda-feira (13) diversos setores na região de Caracas, especialmente no estado de Miranda, governado pelo líder opositor Henrique Capriles, como parte do plano para reduzir a criminalidade na Venezuela.
"Hoje estamos aqui porque decidimos lutar, com toda a nossa alma, para construir uma pátria segura", disse o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ao se dirigir a militares, policiais e guardas municipais no lançamento do plano Pátria Segura 2013, no complexo militar de Fuerte Tiuna, oeste de Caracas.
Membros das Forças Armadas venezuelanas durante cerimônia em Caracas (Foto: Juan Barreto/AFP)Membros das Forças Armadas venezuelanas durante cerimônia em Caracas (Foto: Juan Barreto/AFP)
"Hoje vamos mobilizar 3 mil homens e mulheres (de distintos corpos das forças de segurança) com seus equipamentos para promover a proteção" da população, destacou Maduro, qualificando a insegurança como o "problema mais grave" que enfrenta o país.
A operação começou pelos municípios de Sucre e Baruta, na grande Caracas, ambos dirigidos por prefeitos opositores e no estado de Miranda, governado por Capriles, que impugnou a vitória de Maduro nas eleições de 14 de abril passado no Tribunal Supremo de Justiça.
"Sucre e Baruta são os municípios mais inseguros do país (...). Não sou um ditador, mas tenho que proteger as crianças venezuelanas", explicou Maduro.
Maduro, herdeiro político de Hugo Chávez, destacou que a operação seguirá nas próximas semanas "por todo o espaço e o território da pátria" para proteger o povo.
Na próxima segunda-feira, a operação chegará aos estados de Lara, também governado pela oposição, Zulia e Carabobo, ex-bastiões opositores que caíram nas mãos dos "chavistas" em dezembro passado.
O ministro do Interior, Miguel Rodríguez, revelou na quinta-feira que até setembro estarão formados cerca de nove mil agentes da Polícia Nacional, e parte deste contingente substituirá os militares enviados aos Estados a partir desta segunda.
A Polícia Nacional foi criada em dezembro de 2009 pelo então presidente Hugo Chávez para responder aos altos índices de criminalidade da Venezuela, atuando conjuntamente com as polícias regionais.

12 de mai de 2013

A receita turca de progresso

Como um país que preserva valores seculares se transforma em um caso raro de sucesso econômico e exemplo para o mundo em políticas de bem-estar social

por Paulo Moreira Leite, de Istambul
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MODERNIDADE
A sociedade turca se formou em torno do pequeno comércio e do pequeno agricultor,
mas hoje a paisagem muda com o surgimento de shoppings como o Kanyon Mall
Quem examina a Turquia pela paisagem de Istambul, sua maior cidade, recorda que vivemos num mundo onde geografia é destino, enquanto a história é uma permanente construção de homens e mulheres. Único país do planeta que se divide entre a Europa e a Ásia, a Turquia é um monumento à própria grandeza. Durante seis séculos, foi governada por uma dinastia de sultões que vivia em palácios habitados por dois mil servos para todo tipo de trabalho, inclusive dezenas de mulheres residentes em seus haréns. Seu império se espalhou sobre uma área imensa, que incluía a Argélia e a Áustria, passando pelo Egito, pelo Iraque e pela Bulgária,  para chegar à fronteira da Rússia. Noventa anos depois de uma guerra de independência na qual venceu ingleses e franceses, proclamando assim a República, a Turquia assombra o mundo mais uma vez.
Na última década, seu crescimento econômico atingiu a média de  7% anuais ? a previsão para o ano magro de 2013 é de um avanço de 4%. Depois de passarem um quarto de século pedindo ingresso na União Europeia, sendo rejeitados por exigências descabidas e até humilhantes de Bruxelas, os 75 milhões de turcos só têm motivo para ironizar tamanha arrogância: o país, afinal, está a salvo do desastre pós-2008, que aniquilou tantas economias aparentemente saudáveis do Velho Mundo. Com uma renda per capita de US$ 15 mil, quase 20% superior à brasileira, a Turquia não possui miseráveis naquela quantidade em que eles se tornam visíveis em toda parte. Seus índices de criminalidade são baixos e é possível caminhar pelas ruas das grandes cidades com a sensação de segurança típica de países desenvolvidos. Com um pequeno número de famílias no topo da pirâmide social, que alimentam o mercado milionário de iates de luxo e de palacetes às margens do estreito de Bósforo, o país se beneficia de uma prolongada política de bem-estar social.
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TRADIÇÃO
Um dos bazares mais antigos do mundo, o Mercado Egípcio,
em Istambul, é a prova viva do peso da tradição
A qualidade da saúde pública não inspira protestos muito estridentes e a rede pública de ensino atende os mais pobres e também a classe média. O índice de alfabetização é respeitável: apenas 5% da população não sabe ler nem escrever. Mas até ali se registra a notável diferença entre homens e mulheres, muito menos dramática do que em outros países de cultura muçulmana, mas terrível mesmo assim. Entre os homens, só 1,7% pode ser chamado de analfabeto. Entre as mulheres, o índice é quase cinco vezes maior: 8,4%.
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O grande personagem da Turquia é Kemal Ataturk (1881-1938), líder militar com vários momentos de genialidade e um chefe político corajoso. Ataturk  organizou uma guerra de resistência que, em 1923, expulsou as potências que haviam ocupado o país após a Primeira Guerra Mundial e mandou o sultão Mehmed VI e seus descendentes para o exílio. Numa série de decisões rápidas e radicais, Ataturk proibiu a poligamia, dissolveu as irmandades muçulmanas, substituiu o alfabeto otomano pelo ocidental e adotou o calendário gregoriano. Num esforço absoluto para separar a religião do Estado, proibiu o ensino religioso nas escolas e não permitia que mulheres frequentassem locais públicos portando véu ou qualquer outro traje religioso. Os homens ficaram impedidos de usar o fez, aquele chapéu de formas arredondadas com um adereço semelhante a um puxador de cortinas no topo. Um dos intelectuais mais influentes do círculo de Ataturk resumiu o espírito daquele momento ao dizer que ?não existem duas civilizações, mas apenas uma, e ela é europeia?.
Mulherengo e alcoólatra, Ataturk morreu de cirrose em 1938, mas é símbolo nacional até hoje. Seu retrato é exibido nas festas nacionais e trechos de seus escritos são recordados em tom respeitoso. Em abril, quando lia uma biografia de Ataturk durante uma escala num aeroporto no litoral da Turquia, um viajante brasileiro foi cumprimentado em tom efusivo por uma funcionária do setor de bagagens. Ela queria expressar um tipo de orgulho que muitos brasileiros experimentavam em passado já distante, quando entravam em contato com estrangeiros interessados em histórias sobre Pelé.
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DESAFIO
Bolsa de Valores de Istambul e o primeiro-ministro Erdogan:
ele abriu a economia, mas a democracia é uma obra em construção
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O protagonista da Turquia de hoje é Recep Tayyip Erdogan, prefeito de Istambul e primeiro-ministro com três vitórias consecutivas ? na última, seu partido ficou com 52% dos votos. Perseguido e até preso no passado em função de sua militância numa organização religiosa proibida pela legislação, Erdogan expressa um outro movimento na articulação entre geografia e história. Beneficiária dos recursos milionários do Plano Marshall que o governo americano alavancou para reconstruir a Europa no pós-guerra, a Turquia é um país onde o Estado sempre teve ? e ainda tem ? um papel importante na economia. Ministros costumam reunir-se com empresários para estabelecer metas de crescimento, seja na produção de automóveis, seja na expansão de franquias no exterior e mesmo na exportação de ovos de granja. O Estado possui hotéis de luxo e subsidia até a exportação dos célebres tapetes feitos à  mão que, orgulho cultural,  nos últimos anos enfrentam uma dolorosa situação de risco (leia quadro).
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FUTURO
Garota segura a bandeira turca:
nova geração mais próxima da cultura europeia
As mudanças trazidas por Erdogan têm sinais múltiplos. Numa ousada iniciativa para encerrar um conflito que já produziu 40 mil mortos, o primeiro-ministro monitorou pessoalmente negociações de seu serviço secreto com os líderes curdos, que recentemente se comprometeram a deixar o país em ambiente de trégua. Na economia, os capitais externos não param de chegar, atraídos por vários programas de concessão de serviços públicos e  privatização de estatais. Na Turquia, onde a fé frequentemente se mistura com a economia, investidores bilionários do petróleo árabe tornaram-se grandes fiadores do crescimento.
Na discussão sobre o lugar da religião e da política, as novidades tornam o país mais próximo de seu passado. Se 95% da população se define como muçulmana, grande parte limita-se a seguir regras básicas da religião, procurando preservar a liberdade individual. Nos últimos tempos, a influência de líderes religiosos não parou de crescer nos debates sobre cultura, comportamento e política. Autoexilado nos Estados Unidos, o mais conhecido deles, Fethullah Gülen, com mil escolas espalhadas em vários países, é hoje personalidade influente nos assuntos de governo e nos negócios. De uns tempos para cá, o uso de trajes religiosos foi autorizado nas universidades e instituições públicas em geral. Em decisão recente, a Turkish Airlines, que pertence ao governo, proibiu as comissárias de bordo de utilizar batons vermelhos e pintar as unhas com cores chamativas, uma decisão que os sindicatos denunciam como uma interferência indevida de valores religiosos no ambiente de trabalho. 
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OFÍCIO PENOSO
Artesã confecciona tapetes: o progresso trouxe
novas oportunidades de trabalho para elas
Num país onde a sociedade se formou em torno do pequeno comércio e do pequeno agricultor, a paisagem se modifica com o surgimento de grandes shopping centers e grifes estrangeiras, num processo que desloca valores tradicionais e modifica laços sociais, gerando adeptos e críticos. A popularidade de Erdogan, favorito absoluto nas eleições para presidente da República no ano que vem, é um bom termômetro do número de satisfeitos. Já o empresário Zya Das Deler, fabricante de joias na região da Capadócia e inspirador do personagem Zya, da novela ?Salve Jorge?, é um exemplo da visão contrária. ?A Turquia está perdendo valores que permitiam uma vida mais humana e solidária?, lamentou, em depoimento à ISTOÉ. ?Hoje, o dinheiro compra tudo.?
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A Turquia é um país onde a democracia é uma realidade palpável, mas é também uma obra em construção. Não há restrição à existência de partidos políticos, que só podem ter representantes no Parlamento caso consigam um mínimo de 10% dos votos. Mas a força de um poder militar construído nos anos de Guerra Fria, quando o país se tornou um aliado fidelíssimo de Washington, com direito a verbas polpudas e exclusivas do Exército americano, permanece como uma instituição de tutela. O país assistiu a quatro rupturas institucionais de 1960 para cá, em processos que invariavelmente concluíam pela deposição de um governante eleito, a prisão de autoridades civis e a convocação, em prazo relativamente curto, de novas eleições. Durante seu governo, Erdogan processou militares acusados de tortura e outros abusos contra direitos humanos. Estima-se que um quinto dos oficiais de alta patente já tenha cumprido pena de prisão em função disso.
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VALORES
O empresário Zya Deler, inspirador do personagem Zya, da novela "Salve Jorge":
"A Turquia está perdendo valores que permitiam uma vida mais solidária."
Abaixo, a Mesquita Azul, em Istambul: 95% da população se define como muçulmana
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Herança do poder militar, permanece em vigor uma lei que é usada, também, para intimidar a liberdade civil. O artigo 301 do Código de Processo Penal prevê detenção de até três anos de toda pessoa acusada de ?denegrir? os valores do país. Em 2012, prejudicados pelos termos especialmente vagos da legislação, 61 jornalistas cumpriram pena de prisão por esse motivo. Há um mês, o pianista Fazil Say foi condenado a dez meses de cadeia por ?blasfêmia?, em razão de uma frase no Twitter (celebridade internacional, ele teve a pena suspensa sob condição de não reincidir). As mudanças de paisagem social e política foram imensas na última década, mas há muito por fazer. Lembrando os movimentos contraditórios de tantos processos históricos, a escritora Elif Shafak, que mora em Londres, resume a evolução da seguinte forma. ?A Turquia evolui com dois passos para a frente e um para trás.?
Fotos: Yoray Liberman/Getty Images; Glow Images; Osman Orsal/ap; JOEDSON ALVES/DPA/ZUMApress.com; Umit Bektas/REUTERS; Tales Azzi; SEUX Paule/hemis.fr

11 de mai de 2013

Em parecer, Gurgel defende rejeição de todos os recursos do mensalão

Roberto Gurgel afirmou que embargos não podem mudar decisão do STF.
Procurador-geral vê ainda que intenção de atrasar cumprimento das penas.

Mariana Oliveira Do G1, em Brasília
 O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em sessão no STF (Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF)O procurador-geral da República, Roberto Gurgel,
em sessão no STF (Foto: Fellipe Sampaio//STF)
Em parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta sexta-feira (10), o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, opinou pela rejeição dos recursos apresentados pelos condenados no processo do mensalão.
Foi enviada ao Supremo uma petição única em que Gurgel opina contra a possibilidade de mudanças no resultado do julgamento do Supremo, quando 25 foram condenados. O prazo vencia no dia 16 de maio, mas Gurgel entendeu que não havia necessidade de segurar o processo por mais tempo para dar a mesma opinião para todos.
No documento de 10 páginas, o procurador afirma que as questões levantadas nos recursos "revelam apenas o inconformismo com as condenações impostas" e tentativa de atrasar o cumprimento dos mandados de prisão.
[O julgamento] tem que produzir os seus efeitos, evitando-se quaisquer manobras que tenham como objetivo postergar a execução das penas"
Roberto Gurgel, procurador-geral da República
"Exatamente por isso é que o julgado, fruto de tanta dedicação e de tantos cuidados da Suprema Corte brasileira, tem que produzir os seus efeitos, evitando-se quaisquer manobras que tenham como objetivo postergar a execução das penas impostas aos condenados."
Para Gurgel, o teor dos recursos apresentados, com pedido de mudança do julgamento, só poderia ocorrer no embargo infringente, aquele para quem obteve quatro votos favoráveis e que pode levar à nova análise dos fatos. "É absolutamente descabida a pretensão dos embargantes de obter nova discussão dos fatos e provas que ensejaram suas condenações, o que impõe a rejeição liminar dos embargos."
Nos embargos de declaração, cinco condenados pediram que Joaquim Barbosa deixe de ser relator – o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o delator do esquema, Roberto Jefferson, o ex-sócio de Marcos Valério Ramon Hollerbach, o ex-dirigente do Banco Rural José Roberto Salgado e o deputado federal Pedro Henry.
Os defensores afirmam que, como Joaquim Barbosa assumiu a presidência do Supremo, deve deixar a relatoria. Quase todos os réus pedem penas menores e questionam o acórdão em razão de dois ministros – Celso de Mello e Luiz Fux – terem retirado do texto mais de 1,3 mil falas proferidas durante o julgamento.
Sobre o pedido de substituição do relator, Gurgel afirmou no parecer que o Regimento Interno deixa claro que o presidente da corte pode manter a relatoria. "O artigo 75 do Regimento Interno não deixa dúvida de que o ministro eleito presidente permanece com a relatoria dos feitos em que tiver lançado o relatório ou aposto o seu visto", afirma Gurgel.
O procurador também opinou pela rejeição do pedido de anulação do acórdão em razão de falas suprimidas. "Ao contrário do que afirmam os embargantes, o acórdão contém os votos proferidos pelos eminentes ministros sobre todas as questões examinadas. [...] As insurgências veiculadas nos diversos embargos não evidenciaram qualquer restrição ou cerceamento à defesa."
Próximos passos
Pelo regimento do STF, o embargo de declaração pode ser analisado só pelo relator ou ser enviado ao plenário. No entanto, caso o réu se sinta prejudicado com uma decisão individual, pode entrar com agravo regimental, tipo de recurso que obriga a análise pelo plenário. Nesse caso, também participará o ministro Teori Zavascki, que não atuou no julgamento do mensalão.
Joaquim Barbosa disse que pretende concluir a análise de todos os recursos do processo até 1º de julho, início do recesso do Judiciário.
Os condenados só poderão ser presos ao fim do processo, quando não houver mais nenhuma possibilidade de recurso. No entanto, após o julgamento dos atuais recursos, Barbosa pode entender – caso os réus recorram novamente – que há intenção de atrasar o processo e votar pela expedição dos mandados de prisões. A decisão final, porém, deve ser do plenário.
O julgamento do mensalão terminou em 17 de dezembro do ano passado, após quatro meses e meio e 53 sessões do Supremo Tribunal Federal, que condenou 25 réus e absolveu 12.
O tribunal concluiu que existiu um esquema de compra de votos no Congresso durante os primeiros anos do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os ministros do STF viram desvio de dinheiro público, de contratos da Câmara dos Deputados e do Banco do Brasil, para abastecer o esquema criminoso.

10 de mai de 2013

Celso Amorim diz que área militar deveria receber 2% do PIB nacional

Ministro da Defesa afirma em audiência no Senado que aumento de meio ponto percentual em dez anos é meta razoável para ser alcançada


O ministro da Defesa, Celso Amorim, acredita que o Brasil deveria dedicar à área militar pelo menos 2% do produto interno bruto (PIB), o que colocaria o país num patamar mais próximo ao de outras nações em desenvolvimento, como Rússia, China, Índia e África do Sul, que gastam em média 2,5%. Ele participou ontem de audiência da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), presidida pelo senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES).
O ministro disse que o orçamento dedicado às Forças Armadas hoje é de 1,5% do PIB, e o aumento de 0,5 ponto percentual é meta razoável para ser alcançada em dez anos.
— Seria algo razoável para deixar o Brasil num nível compatível com seu status político e diplomático. Eu seria o último a negar a necessidade de mais recursos, mas tem havido um incremento constante — afirmou o Amorim, referindo-se à previsão orçamentária de 2013 para custeio e investimento no setor no valor de R$ 18,5 bilhões. Em 2005, segundo ele, foram previstos R$ 6 bilhões.
Amorim enumerou projetos como a construção de corveta e navios-patrulha pela Marinha, o desenvolvimento de novo blindado pelo Exército para substituir os antigos Cascavel e Urutu e o trabalho da Aeronáutica no avião cargueiro KC-390, que vai operar no lugar do Hércules C-130.
Segundo o ministro, esses projetos estão incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o que não garante mais verbas, mas assegura que não haverá contingenciamento. Algumas das empreitadas devem ter financiamento do BNDES.

Baixa remuneração

Cidadãos de todo o Brasil puderam participar da audiência pela internet e pelo Alô Senado, enviando perguntas e opiniões ao ministro. Na fase de debates, os senadores mostraram-se preocupados com a situação dos 17 mil quilômetros de fronteira e com a evasão de oficiais das três Armas, causada principalmente pelas baixas remunerações.
Celso Amorim reconheceu o problema, mas minimizou, alegando não haver razão para “alarmismo” da imprensa.
— Este caráter alarmista não se justifica plenamente, o que não significa que o problema não exista. O quadro de evasão preocupa e criamos um grupo de trabalho específico para tratar do assunto. Antecipadamente, posso dizer que as áreas de engenharia e de saúde são as mais críticas. Boa parte dos médicos do Hospital da Força Aérea, com sede em Brasília, são civis e ganham metade, por exemplo, dos profissionais do governo do Distrito Federal. Tem sido uma luta muito grande e estamos trabalhando em soluções — afirmou o ministro.
O último reajuste concedido pelo governo federal aos militares — 30% divididos em três parcelas — não foi o ideal, na opinião do ministro, mas foi “o possível” e revelou a sensibilidade da presidente Dilma Rousseff com a situação.