Relação encaminhada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao STF atinge a gestão de Dilma, amplia a divisão na base governista e leva os presidentes da Câmara e do Senado a partir para o confronto aberto contra o governo
Sérgio Pardellas (sergiopardellas@istoe.com.br)
"A tarefa de governar faz-se, a cada dia,
mais complexa e difícil”. As palavras são de Getúlio Vargas, no célebre
discurso do dia 7 de setembro de 1938, durante o Estado Novo, mas
poderiam muito bem ter sido proferidas por Dilma Rousseff. A presidente
da República inicia a semana mergulhada numa crise política e
institucional sem precedentes na era petista no poder. Nem no ápice do
escândalo do mensalão o governo esteve tão isolado. Um distanciamento
para o qual ele mesmo contribuiu, através de manobras políticas
atabalhoadas e de sérios equívocos administrativos cometidos pela
presidente e seus auxiliares desde o início do segundo mandato. Nos
últimos dias, a crise agravou-se em decorrência de uma aposta de
elevadíssimo risco feita pelo Palácio do Planalto. Num esforço para
conseguir escapar da agenda negativa, o governo jogou todas as suas
fichas na divulgação da aguardada lista entregue pelo procurador-geral
da República, Rodrigo Janot, ao ministro do STF, Teori Zavascki.
Apostava nos bastidores que, ao trazer integrantes da oposição e aliados
que lhe causavam embaraços no Congresso, a relação dos 54 nomes – entre
os quais 45 parlamentares, sendo 28 com pedidos de abertura de
inquérito – implicados no escândalo do Petrolão tiraria Dilma das cordas
e equilibraria o jogo político. A estratégia revelou-se um tiro no pé.

A RELAÇÃO QUE IMPÔS MEDO
Às 20h11 da terça-feira 3, o ministro do STF Teori Zavascki recebeu
do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a lista com 28 pedidos
de abertura de inquérito contra 54 pessoas envolvidas no Petrolão
A divulgação da lista de Janot, ao
contrário do que acalentava Dilma e assessores, teve efeito explosivo no
Planalto. Os vazamentos iniciais, que envolveram os nomes dos
presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo
Cunha (PMDB-RJ), instigaram ainda mais a ira dos já descontentes
peemedebistas. Ao saber da inclusão de seus nomes, Renan e Cunha
resolveram declarar guerra ao Planalto. A situação se deteriorou ao se
conhecer o inteiro teor do documento enviado por Janot ao STF. Motivo: a
relação empurrou cabeças coroadas da gestão Dilma para o epicentro do
Petrolão. Figuram na lista, extraída a partir da delação de integrantes
confessos do esquema de desvios bilionários de recursos da Petrobras,
cinco ex-ministros do governo – Antônio Palocci e Gleisi Hoffmann (Casa
Civil), Edison Lobão (Minas e Energia), Mário Negromonte e Aguinaldo
Ribeiro (Cidades). E mais. Nas delações, a própria presidente Dilma foi
mencionada. No entanto, a citação à presidente da República não foi
considerada suficiente por Janot para ensejar um pedido de abertura de
inquérito contra ela no STF. O procurador disse que a Constituição não
permite que Dilma seja investigada por qualquer ato sem relação com o
exercício do cargo de presidente, durante a vigência do mandato. Segundo
Janot, as referências à presidente na Lava Jato são alusivas a fatos
ocorridos antes de ela assumir o Planalto, em 2011, como a compra da
refinaria de Pasadena, no Texas, quando Dilma era ministra de Minas e
Energia e presidente do Conselho de Administração da Petrobras. A
decisão, no entanto, está envolta em polêmica. “A exclusão do nome da
presidente Dilma Rousseff da lista da Lava Jato não significa
inocência”, reconhece Ophir Cavalcanti, ex-presidente da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB). “Se quisesse, Janot poderia ter pedido
licença ao Congresso para investigar a presidente.

Optou, porém, pela decisão mais
conservadora”, afirmou um ex-procurador da República ouvido por ISTOÉ.
Outros sete políticos citados pelos delatores foram excluídos da
investigação por recomendação de Janot, entre eles o senador Aécio Neves
(PSDB-MG) e o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB). No caso de Aécio,
principal líder da oposição, a citação feita pelo doleiro Alberto
Youssef era indireta. Ele disse que teria ouvido alguém dizer que havia
envolvimento do senador mineiro. Há, ainda, um agravante. Segundo o
advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, os procuradores
insistiram em perguntas sobre o senador tucano induzindo-os a
mencioná-lo. “Ouvir dizer não é nada. E essa postura adotada é ilegal.
Delação tem que ser voluntária. Não pode ser dirigida contra”, afirmou
Kakay. Contra Dilma a suspeita é outra. Segundo relato obtido pela
Operação Lava Jato, a atual presidente teria conhecimento do que se
passava na Petrobras. A investigação poderia, em tese, concluir pela
prática de crime por omissão.

A maneira atrapalhada com que o governo –
tendo Dilma, Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo
(Justiça) à frente – conduziu as articulações no sentido de tirar
proveito da divulgação da lista pesou decisivamente para a deflagração
da crise institucional. Na semana anterior ao encaminhamento da relação
ao STF, o Planalto demonstrou incontida satisfação ao tomar
conhecimento da inclusão na lista de integrantes do PSDB e de políticos
considerados aliados, mas que nos últimos tempos estavam endurecendo o
jogo com Dilma, casos de Renan e Eduardo Cunha. “Com a lista, a
correlação de forças vai mudar”, fizeram questão de espalhar ministros
do governo. A reação dos aliados mencionados foi imediata e contundente.
O presidente do Senado contra-atacou à notícia do seu envolvimento no
Petrolão disparando contra o governo. A primeira retaliação ocorreu na
terça-feira 3, quando Renan anunciou a devolução da Medida Provisória
669/2015, que reduz a desoneração da folha de pagamentos das empresas,
adotada em 2011 pelo governo para aliviar os gastos com mão-de-obra e
estimular a economia. A medida era considerada essencial para os planos
do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de aumentar as receitas do
governo. Em seguida, Renan adiou a sessão em que deputados e senadores
poderiam analisar vetos da presidente Dilma e o Orçamento de 2015,
impondo mais uma derrota ao Planalto.

Eduardo Cunha também mostrou as armas. Na
quarta-feira 4, aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que
amplia de 70 para 75 anos a idade para a aposentadoria compulsória de
magistrados de tribunais superiores, a chamada “PEC da Bengala”. Foram
318 votos a favor da proposta. Um massacre na votação que incomoda o
governo e deve tirar de Dilma o poder de indicar cinco ministros do STF
até 2018. Mas foi na CPI da Petrobrás que Cunha produziu o maior estrago
para o Planalto. Articulou com o presidente da Comissão e seu aliado
Hugo Motta (PB) a contratação de uma empresa estrangeira para investigar
movimentações financeiras no exterior de integrantes do governo
envolvidos no Petrolão e anunciou a criação de quatro sub-relatorias –
enfraquecendo o trabalho do relator, Luiz Sérgio (PT-RJ). No mesmo dia, a
CPI convocou para depor os ex-presidentes da Petrobras Graça Foster e
Sérgio Gabrielli, além do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto
Costa, do ex-diretor de Serviços Renato Duque e dos ex-diretores da área
Internacional Nestor Cerveró e Jorge Zelada. Diferentemente dos
convites, as convocações tornam a ida à Câmara obrigatória. Os
depoimentos podem ter efeito devastador para o governo. Para piorar o
ambiente, o ministro da Educação, Cid Gomes, declarou que o Congresso
abrigava 400 achacadores. A afirmação levou Cunha a convocá-lo para
prestar explicações na Câmara.

Ato contínuo à resposta ao governo, a dupla
Cunha e Renan se voltou contra o procurador-geral, Rodrigo Janot. Além
de pedir acesso à documentação, Renan criticou procedimentos do MPF no
caso da Lava Jato e defendeu novas regras para a recondução ao cargo de
procurador-geral da República, como a desincompatibilização do posto
antes do período eleitoral. “Nós estamos agora com o procurador em
processo de reeleição. Quem sabe se, mais adiante,não vamos ter também
que regrar esse sistema que o MP tornou eletivo”, disse numa clara
referência a Janot, que encerra seu mandato no cargo em setembro, mas
pode ser reconduzido ao posto caso a presidente Dilma decida e o Senado
aprove. Eduardo Cunha fez acusações mais sérias. Disseminou entre
pessoas próximas que a informação sobre a inclusão do seu nome na lista
do Petrolão chegou em primeira mão ao Palácio do Planalto. E foi
efusivamente comemorada antes de ser vazada à imprensa. Teria inspirado
até um brinde de champanhe entre importantes ministros de Dilma. Ainda
na versão difundida por Cunha, seu nome foi estrategicamente incluído da
lista pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que teria
trabalhado em parceria com o procurador-geral. Aécio foi numa toada
semelhante. “Foram infrutíferas as tentativas do governo de envolver a
oposição na investigação”, afirmou.
A desorientada articulação política do
governo deu margem para as acusações. Antes de concluir a lista final de
investigados com foro privilegiado, a rotina do procurador-geral,
Rodrigo Janot, foi consumida por reuniões com autoridades do governo. Em
fevereiro deste ano, pelo menos três encontros de Janot se tornaram
públicos. O primeiro deles ocorreu no início da noite do dia 25 de
fevereiro. Em seu gabinete, o procurador-geral recebeu o ministro da
Justiça, José Eduardo Cardozo.

O prédio da PGR fica em uma área afastada
da Esplanada e o acesso à ala que abriga o gabinete de Janot é feito por
vagas exclusivas de garagem, com filtro de entrada e saída. Desde
janeiro, as autoridades teriam se falado pessoalmente em pelo menos
outras três agendas não divulgadas pela PGR ou pelo Ministério da
Justiça. Ambos negaram que a lista de políticos envolvidos na Operação
Lava Jato tenha pautado os encontros. Alegaram, num primeiro momento,
ter discutido um projeto legislativo que envolvia competências do
Ministério Público Federal e da Justiça. Duas horas depois, as
assessorias das duas autoridades alteraram a versão. Dessa vez, disseram
que os encontros destinaram-se a discutir a ampliação da segurança de
Janot, que teve sua casa arrombada no fim de janeiro. Os ladrões teriam
levado apenas o controle remoto da garagem. Após o episódio, a segurança
do procurador-geral foi reforçada.

Na manhã do dia 26 de fevereiro, Janot
esteve no Palácio do Jaburu para uma reunião com o vice-presidente da
República, Michel Temer. De acordo com parlamentares do PMDB, teria sido
nesta reunião que o procurador-geral confirmou a Temer que Eduardo
Cunha e Renan compunham a lista de investigados entregue ao STF. A
versão de Janot sobre o encontro, porém, não menciona a Lava Jato. O
procurador-geral disse que visitou o vice-presidente no Jaburu para
pedir recursos orçamentários para recompor a folha salarial do
Ministério Público da União. Ainda na noite do dia 26 de fevereiro,
Janot foi visto deixando o Palácio da Alvorada após as 21h. A assessoria
do procurador, porém, desmente qualquer encontro com a presidente Dilma
Rousseff.

A deterioração do cenário político consome
as preocupações no Planalto. Dilma nunca esteve tão irascível, segundo
relatos de auxiliares. Teme-se no PT que a crescente insatisfação da
população, em razão de medidas impopulares anunciadas pelo governo nos
dois primeiros meses do segundo mandato, somada ao estremecimento na
relação com o Congresso crie um ambiente mais receptivo a um eventual
pedido de impedimento da presidente. No fim da semana passada, ministros
começaram a considerar a possibilidade de promover uma espécie de pacto
nacional que inclua o PSDB, principal partido de oposição ao petismo.
Com medo da recessão, setores empresariais e financeiros serviriam de
ponte para a negociação.
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