9 de mar de 2015

Compra de votos na eleição do Amazonas teve até recibo

Reportagem do 'Fantástico' mostrou que esquema que teria reeleito José Melo (Pros) pode ter usado dinheiro público para aquisição de óculos, reforma de túmulo e festa de formatura.

O governador do Amazonas, José Melo de Oliveira (PROS)
O governador do Amazonas, José Melo de Oliveira (PROS)(Alan Marques/Folhapress)
O governador reeleito do Amazonas, José Melo (Pros), teve seu nome ligado a um esquema de compra de votos em reportagem exibida na noite deste domingo no Fantástico, da TV Globo. Pelo esquema, dinheiro público seria utilizado para a confecção de óculos (730 reais), para o pagamento de uma festa de formatura (5.300 reais) e a reforma de um túmulo (450 reais), todos negócios que contam com recibo. Em troca dos favores, eleitores corrompidos dariam seus votos para Melo.
De acordo com a matéria, as transações foram realizadas por intermédio do irmão de José Melo, Evandro, um dos responsáveis pelo projeto da Copa do Mundo em Manaus, e de Nair Blair, fundadora de duas associações sem fins lucrativos. Uma dessas associações, ao que parece, só existe no papel, já que a reportagem foi à sua sede, em Brasília, e não encontrou ninguém que confirmasse a existência da tal Agência Nacional de Segurança e Defesa, que recebeu 1 milhão de reais do governo do Amazonas para "implementação de solução tecnológica em tempo real móvel" a dois dias do início da Copa, serviço solicitado em caráter de urgência no Centro de Segurança de Manaus pela Secretaria de Segurança para Grandes Eventos.
Em dezembro do ano passado, Nair foi denunciada por crime eleitoral, depois que a Polícia Federal recebeu uma denúncia anônima sobre compra de votos que aconteceria na sede do comitê da campanha de José Melo. Dois dias antes do segundo turno, agentes da PF foram ao local e ouviram, de pastores e representantes religiosos presentes, que Nair era "milionária" e que falar com ela era "o mesmo que" falar com o governador.
Esta não é a primeira vez que Nair Blair tem problemas com a Justiça. Em 2009, ela chegou a ir ao Senado responder por desvio de dinheiro público na CPI das ONGs, que investigava uma outra organização criada por ela, a Angrhamazonica. E, no fim do ano passado, foi condenada a devolver 3 milhões de reais ao Ministério da Cultura, que contratou a Angrhamazonica em 2007 para organizar cinco eventos, no Brasil e no exterior, dos quais só um aconteceu de fato, o Réveillon de Brasília, em 2008, com apresentação de grupos folclóricos do Amazonas.
"O Ministério Público entende que realmente houve esse esquema de compra de voto", disse a promotora de Justiça Sheyla Andrade dos Santos. Ouvido pela reportagem, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Antonio Dias Toffoli explicou que o caso pode resultar na perda do mandato de José Melo, e também levar a um processo criminal. "No aspecto político-eleitoral, pode levar à perda do mandato daquele que comprou votos. E, no aspecto criminal, à condenação e prisão de até quatro anos de reclusão." Ainda segundo Toffoli, os eleitores também cometem crime ao vender seu voto em troco de bens e favores.

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