22 de mar de 2015

Com seca, produtores trocam hidrovia por caminhões e têm prejuízo

Tietê-Paraná está fechada desde maio de 2014 por causa da seca.
Setor de grãos já acumula prejuízo de ao menos R$ 57 milhões, diz Abag.

Karina Trevizan Do G1, em São Paulo
Hidrovia Tietê-Paraná (Rede Globo) (Foto: Reprodução Rede Globo)Fechamento da hidrovia Tietê-Paraná obrigou produtores a transportar grãos por rodovias, gerando custos extras (Foto: Reprodução/TV Globo)
A estiagem causou prejuízo estimado de pelo menos R$ 57 milhões entre 2014 e 2015 ao setor do agronegócio por causa da impossibilidade de transportar grãos pela hidrovia Tietê-Paraná. A estimativa é do presidente do Conselho de Logística e Infraestrutura da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Renato Pavan.

A Tietê-Paraná transporta cerca 8 milhões de toneladas de carga anualmente. Desse montante, aproximadamente 2 milhões de toneladas são de soja e milho, que são transportadas em barcaças rumo a indústrias e portos. Fechada desde maio de 2014 por causa da estiagem, a hidrovia não foi reaberta em janeiro – ou seja, a tempo do início da temporada de escoamento de soja.
Por isso, entre 2014 e 2015 o transporte de pelo menos 4 milhões de toneladas de grãos que seriam feitos pela hidrovia e por ferrovia foi feito de caminhão. Isso custa mais caro para o produtor. O prejuízo afeta produtores de estados como Goiás, Mato Grosso e São Paulo.

O trajeto que passou a ser feito de caminhão inclui o trecho da hidrovia entre São Simão (GO) até Pederneiras (SP) e, em seguida, o percurso em ferrovia de Pederneiras até o porto de Santos (SP).
Em 2014, o custo extra estimado com transporte foi de R$ 15 por tonelada de grãos, segundo Pavan, totalizando R$ 30 milhões prejuízo com transporte. De acordo com o representante da Abag, em 2015 o valor estimado diminuiu para cerca de R$ 27 milhões por causa da baixa no preço dos fretes – alvo inclusive de protestos entre os caminhoneiros até o início do mês.
Foram mais de 700 trabalhadores demitidos, que operavam o sistema de barcaças, empurradores, carga e descarga"
Edeon Vaz Ferreira, da Aprosoja
O custo para transportar uma tonelada de grãos pela hidrovia é de R$ 86. Enquanto isso, o valor médio para levar a mesma carga de caminhão era de R$ 101 em 2014 e passou para R$ 99 em 2015, em média, calcula Pavan. “Se não chover, a cada ano os usuários da hidrovia vão ter prejuízo”, diz. “Enquanto não houver uma recuperação da hidrovia, a perda é da ordem de R$ 27 milhões a R$ 30 milhões por ano.”

Segundo o diretor do Movimento Pró-Logística da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja) de Mato Grosso, Edeon Vaz Ferreira, o prejuízo é ainda maior. "No ano passado, 2 milhões de toneladas deixaram de passar pela hidrovia. Neste ano, serão 2,5 milhões de toneladas. No ano passado houve um aumento de custo aos produtores de US$ 37 milhões. Neste ano, serão US$ 46 milhões", diz.

Demissões
Pavan também cita como prejuízo a redução do trabalho em terminais hidroferroviários. “As empresas têm uma estrutura para transportar essa quantidade. A frota paralisada é uma consequência social, pois a empresa tem que demitir um monte de gente”, aponta. “O prejuízo financeiro é quando você paga mais pelo caminhão do que poderia pagar pela hidrovia. O prejuízo social é um monte de gente ser demitida. Não existe uma expectativa a curto prazo para retomar.”
Ferreira, aponta que “foram mais de 700 trabalhadores demitidos”. “Eles operavam todo o sistema de barcaças, empurradores, trabalhavam na carga e descarga em cada ponta”, cita Ferreira.
A Abag não possui um levantamento nacional para calcular o prejuízo total da seca ao agronegócio, incluindo tanto os gastos extras com transporte quanto perdas na produção.
Enquanto não houver uma recuperação da hidrovia, a perda é da ordem de R$ 27 milhões a R$ 30 milhões por ano"
Renato Pavan, da Abag
"A seca ocasionou prejuízo em vários estados. Goiás perdeu quase R$ 1 bilhão, Espírito Santo perdeu R$ 40 milhões, por exemplo", diz Pavan. "Houve uma perda muito grande por causa da seca, que prejudicando o plantio da safrinha. E você não consegue quantificar. Não há um levantamento para saber quanto a seca ocasionou de prejuízo no Brasil."

Ferreira aponta que o impacto foi maior para produtores de milho que para os de soja. "O impacto não se deu na soja, vai se dar no milho por causa da redução da área de plantio. Nós temos um limite da época de plantio. Plantamos normalmente a soja mais cedo, a partir da segunda quinzena de setembro, e colhemos a partir do Natal. Na sequência, plantamos milho e algodão. Isso é o que se faz no Mato Grosso. Neste ano, como houve atraso das chuvas, se plantou poucas áreas de milho", explica.

"Deslocou-se o plantio para mais tarde, houve um atraso de 20 dias. Com isso, atrasou o plantio o milho. Houve uma redução da área do milho", diz Ferreira. Segundo ele, essa mudança trazida pela seca irá "afetar o preço do milho", com aumento do valor.
Outras hidrovias
Pavan e Ferreira afirmam que a Tietê-Paraná foi a única que teve prejuízos por causa da seca. Entre as hidrovias nacionais, outra que enfrenta problemas de navegabilidade é a Hidrovia do Madeira, na região Norte – mas a causa é distinta.

Na hidrovia do rio Madeira, a mudança aconteceu por causa da cheia do rio. “Lá é o contrário, teve problema por causa de enchente. Teve problema de atracação dos comboios e para chegar o produto até o terminal porque as estradas ficaram alagadas. Não dá para quantificar o valor, mas foi considerável”, diz Pavan.

“A hidrovia do rio Madeira é cíclica”, explica Ferreira. “No período das secas, de agosto até dezembro, ela baixa, mas continua-se navegando. Reduz-se o tamanho dos comboios e o peso. O caso da Tietê-Paraná é diferente”, compara o representante da Aprosoja.
 
    Hidrovia Tietê-Paraná é usada para transporte de grãos (Foto: Editoria de Arte/G1)

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