Relação entre Dilma e PT nunca esteve tão estremecida. Em quatro meses, mais de cinco mil petistas deixaram a legenda, após fazerem críticas ao governo. Mas interesses políticos impedem o rompimento de papel passado
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)
Na matemática
política atual, a relação entre a presidente Dilma Rousseff e o PT traz
prejuízos a ambos. Dilma atribui parte da rejeição sofrida por ela à
associação de seu nome ao do partido, manchado pelos escândalos de
corrupção que atingiram seus principais dirigentes. Não por acaso,
alguns auxiliares de Dilma apontam que uma das saídas para a crise seria
o afastamento dela da legenda. O PT, por sua vez, teme que o partido
seja contaminado pelas trapalhadas do governo, reprovado hoje por 71%
dos brasileiros. Entre os petistas já há quem defenda, intramuros ou até
publicamente, a renúncia de Dilma. Dessa forma, acreditam os
entusiastas dessa tese, o partido teria tempo hábil para tentar se
reabilitar visando às eleições municipais de 2016 e presidenciais de
2018. Hoje, dirigentes da legenda vislumbram um massacre da oposição nos
próximos dois pleitos. O desespero do PT guarda relação com a deserção
em massa da legenda verificada nos últimos quatro meses. De abril para
cá, nada menos do que 5.267 políticos deixaram o PT para concorrer às
eleições do ano que vem por outras agremiações. A justificativa de quem
sai, em geral, é o medo de perder as eleições por estarem ligados a um
partido e a um governo altamente impopulares.

Após 32 anos de PT, o vice-prefeito de
Jundiaí (SP) Durval Orlato deixará a legenda este ano. Segundo Orlato,
os políticos que ingressaram no partido durante a gestão popular de Luiz
Inácio Lula da Silva são os que mais sentiram a crise vivida pelo
governo Dilma. “O fato de Dilma ter aplicado medidas econômicas que não
divulgava na campanha acirrou os ânimos da oposição. Algumas pessoas
veem a situação do partido fragilizada em razão dos erros da presidente.
Quem entrou no partido há cinco anos vincula o momento ruim do PT à
situação periclitante do governo”, diz. O prefeito de João Pessoa,
Luciano Cartaxo, é outro que ensaia a saída do PT. Prefeito da capital
da Paraíba em primeiro mandato, ele vê sua popularidade ser minada pela
rejeição a Dilma Rousseff. Nos últimos dias, ele chegou a acenar para
uma aliança com o PSDB de Cássio Cunha Lima para as eleições de 2016,
mas a hipótese foi descartada pelo tucano. Para manter viável a
possibilidade de se reeleger no ano que vem, Cartaxo flerta com o PSD.
Também ameaçam abandonar o barco, antigos aliados do ex-ministro José
Dirceu. A exemplo de Dirceu, preso pela segunda vez há duas semanas,
acusado de corrupção, eles atribuem à omissão de Lula e Dilma o fato de o
PT ter ganhado a pecha de corrupto. “Dilma, principalmente, jogou o PT
aos leões. Não fez nada para proteger o partido e sempre que pode tenta
se desvincular da legenda, como se o partido não fosse o responsável por
sua reeleição”, afirmou um petista ligado ao ex-ministro da Casa Civil,
que pediu para não ser identificado. Os correligionários que ficam, por
força do mandato ou por questões ideológicas, não poupam críticas a
presidente. “A economia está indo para um lado que não foi o que
construímos. Você sai na rua e o povo fala que a vaca tossiu. Isso
representa muito para a nossa base. Como vamos defender Lula e Dilma se a
base social não vier?”, questiona o vereador Lineu Navarro, do PT de
São Carlos (SP).
Integrantes da velha guarda petista vem
torpedeando o governo publicamente. “Não adianta fazer cara de paisagem.
Alguma coisa tem de ser feita. Ou ela faz uma mudança de rota, muda a
receita do ajuste etc., ou ela pega a caneta e fala ‘vou pra casa, não
dou conta’. Eu tenho esse temor”, afirmou Frei Betto, amigo do
ex-presidente Lula, de quem foi assessor especial no início do mandato.
“Eu não sei o que de positivo a Dilma fez de janeiro para cá. Gostaria
que alguém dissesse. O ajuste é necessário? É necessário. Mas o ônus é
só sobre o trabalhador”, acrescentou Betto.

Apesar do desejo mútuo, o divórcio dos
sonhos tanto para Dilma quanto para o PT tem entraves. O pragmatismo
político impede o desenlace de papel passado. O crescimento do PT em
prefeituras, estados e Câmaras municipais na última década foi
impulsionado pelo loteamento de cargos estratégicos em estruturas
federais que fornecem benefícios diretos a eleitores e empresários.
Longe do governo, o PT perderia esses postos. Em parte, o fenômeno já
vem ocorrendo, graças à ampliação da participação do PMDB no governo. A
substituição na presidência do Banco do Nordeste, por exemplo, favoreceu
o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira, que ganhou a indicação na
instituição financeira em detrimento do PT do Piauí, que era o padrinho
do posto. O deputado estadual Fábio Novo protestou contra a decisão da
presidente.
“Não temos o respeito da presidente, temos
apenas bons técnicos e votos. Sim, na última eleição a presidente que
votei ficou devendo muito ao Piauí. Daqui saiu a maior votação
proporcional do país. E eu acreditei quando ela disse que nos amava,
naquele comício de abertura do segundo turno da sua campanha,” escreveu
em desabafo nas redes sociais há dois meses, em meio à substituição no
Banco do Nordeste. Apesar do avanço do PMDB sobre cargos importantes, o
PT ainda ocupa fatia expressiva da máquina administrativa federal. E nem
pensa em abrir mão dela. A presidente Dilma, por seu lado, também não
prescinde dos votos dos petistas no Congresso. Embora 50 integrantes da
legenda tenham se posicionado contra o governo em recente apreciação da
chamada “pauta bomba”, Dilma conta com as articulações do ex-presidente
Lula, de Renan e do vice Michel Temer para pacificar a bancada. Na
semana passada, membros do partido ameaçaram votar contra a Agenda
Brasil proposta no Senado.

O ADEUS
O prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, negocia
sua saída do PT. O destino pode ser o PSD
Fotos: João Castellano/ISTOÉ
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