15 de ago de 2015

O que falta para o divórcio

Relação entre Dilma e PT nunca esteve tão estremecida. Em quatro meses, mais de cinco mil petistas deixaram a legenda, após fazerem críticas ao governo. Mas interesses políticos impedem o rompimento de papel passado

Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)
Na matemática política atual, a relação entre a presidente Dilma Rousseff e o PT traz prejuízos a ambos. Dilma atribui parte da rejeição sofrida por ela à associação de seu nome ao do partido, manchado pelos escândalos de corrupção que atingiram seus principais dirigentes. Não por acaso, alguns auxiliares de Dilma apontam que uma das saídas para a crise seria o afastamento dela da legenda. O PT, por sua vez, teme que o partido seja contaminado pelas trapalhadas do governo, reprovado hoje por 71% dos brasileiros. Entre os petistas já há quem defenda, intramuros ou até publicamente, a renúncia de Dilma. Dessa forma, acreditam os entusiastas dessa tese, o partido teria tempo hábil para tentar se reabilitar visando às eleições municipais de 2016 e presidenciais de 2018. Hoje, dirigentes da legenda vislumbram um massacre da oposição nos próximos dois pleitos. O desespero do PT guarda relação com a deserção em massa da legenda verificada nos últimos quatro meses. De abril para cá, nada menos do que 5.267 políticos deixaram o PT para concorrer às eleições do ano que vem por outras agremiações. A justificativa de quem sai, em geral, é o medo de perder as eleições por estarem ligados a um partido e a um governo altamente impopulares.
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Após 32 anos de PT, o vice-prefeito de Jundiaí (SP) Durval Orlato deixará a legenda este ano. Segundo Orlato, os políticos que ingressaram no partido durante a gestão popular de Luiz Inácio Lula da Silva são os que mais sentiram a crise vivida pelo governo Dilma. “O fato de Dilma ter aplicado medidas econômicas que não divulgava na campanha acirrou os ânimos da oposição. Algumas pessoas veem a situação do partido fragilizada em razão dos erros da presidente. Quem entrou no partido há cinco anos vincula o momento ruim do PT à situação periclitante do governo”, diz. O prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, é outro que ensaia a saída do PT. Prefeito da capital da Paraíba em primeiro mandato, ele vê sua popularidade ser minada pela rejeição a Dilma Rousseff. Nos últimos dias, ele chegou a acenar para uma aliança com o PSDB de Cássio Cunha Lima para as eleições de 2016, mas a hipótese foi descartada pelo tucano. Para manter viável a possibilidade de se reeleger no ano que vem, Cartaxo flerta com o PSD. Também ameaçam abandonar o barco, antigos aliados do ex-ministro José Dirceu. A exemplo de Dirceu, preso pela segunda vez há duas semanas, acusado de corrupção, eles atribuem à omissão de Lula e Dilma o fato de o PT ter ganhado a pecha de corrupto. “Dilma, principalmente, jogou o PT aos leões. Não fez nada para proteger o partido e sempre que pode tenta se desvincular da legenda, como se o partido não fosse o responsável por sua reeleição”, afirmou um petista ligado ao ex-ministro da Casa Civil, que pediu para não ser identificado. Os correligionários que ficam, por força do mandato ou por questões ideológicas, não poupam críticas a presidente. “A economia está indo para um lado que não foi o que construímos. Você sai na rua e o povo fala que a vaca tossiu. Isso representa muito para a nossa base. Como vamos defender Lula e Dilma se a base social não vier?”, questiona o vereador Lineu Navarro, do PT de São Carlos (SP).
Integrantes da velha guarda petista vem torpedeando o governo publicamente. “Não adianta fazer cara de paisagem. Alguma coisa tem de ser feita. Ou ela faz uma mudança de rota, muda a receita do ajuste etc., ou ela pega a caneta e fala ‘vou pra casa, não dou conta’. Eu tenho esse temor”, afirmou Frei Betto, amigo do ex-presidente Lula, de quem foi assessor especial no início do mandato. “Eu não sei o que de positivo a Dilma fez de janeiro para cá. Gostaria que alguém dissesse. O ajuste é necessário? É necessário. Mas o ônus é só sobre o trabalhador”, acrescentou Betto.
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Apesar do desejo mútuo, o divórcio dos sonhos tanto para Dilma quanto para o PT tem entraves. O pragmatismo político impede o desenlace de papel passado. O crescimento do PT em prefeituras, estados e Câmaras municipais na última década foi impulsionado pelo loteamento de cargos estratégicos em estruturas federais que fornecem benefícios diretos a eleitores e empresários. Longe do governo, o PT perderia esses postos. Em parte, o fenômeno já vem ocorrendo, graças à ampliação da participação do PMDB no governo. A substituição na presidência do Banco do Nordeste, por exemplo, favoreceu o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira, que ganhou a indicação na instituição financeira em detrimento do PT do Piauí, que era o padrinho do posto. O deputado estadual Fábio Novo protestou contra a decisão da presidente.
“Não temos o respeito da presidente, temos apenas bons técnicos e votos. Sim, na última eleição a presidente que votei ficou devendo muito ao Piauí. Daqui saiu a maior votação proporcional do país. E eu acreditei quando ela disse que nos amava, naquele comício de abertura do segundo turno da sua campanha,” escreveu em desabafo nas redes sociais há dois meses, em meio à substituição no Banco do Nordeste. Apesar do avanço do PMDB sobre cargos importantes, o PT ainda ocupa fatia expressiva da máquina administrativa federal. E nem pensa em abrir mão dela. A presidente Dilma, por seu lado, também não prescinde dos votos dos petistas no Congresso. Embora 50 integrantes da legenda tenham se posicionado contra o governo em recente apreciação da chamada “pauta bomba”, Dilma conta com as articulações do ex-presidente Lula, de Renan e do vice Michel Temer para pacificar a bancada. Na semana passada, membros do partido ameaçaram votar contra a Agenda Brasil proposta no Senado.
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O ADEUS
O prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, negocia
sua saída do PT. O destino pode ser o PSD
Fotos: João Castellano/ISTOÉ  

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