Tufão Haiyan destrói cidades e mata milhares de pessoas nas Filipinas. A questão agora é se o aumento da força de fenômenos atmosféricos incomuns é resultado do aquecimento global
João LoesPoucos países estão tão sujeitos a tragédias naturais quanto as Filipinas. Com vulcões ativos, terremotos que ultrapassam os sete graus na escala Richter e uma média de 20 tufões registrados todos os anos, há quem diga que essa ilha no Pacífico, uma ex-colônia espanhola, acostumou-se com os castigos impostos pela natureza. Mas nem os calejados filipinos esperavam ter de encarar o monstro meteorológico que aportou por lá na semana passada. Batizado de tufão Haiyan, o fenômeno já é tido como um dos mais fortes de que se tem registro (leia quadro). Até a quinta-feira 14, o Haiyan havia tirado a vida de 2.357 pessoas e ferido pelo menos outras 3.891, segundo dados oficiais. Com ventos médios de 315 km/h, quase 60% mais velozes que os registrados durante o furacão Katrina, que matou 1.836 pessoas nos Estados Unidos em 2005, o tufão chegou a elevar o nível do mar em algumas regiões em até quatro metros, alagando ruas e abrigos subterrâneos. “O Haiyan chegou à costa filipina quando ele estava no pico de suas forças”, afirmou Kerry Emanuel, cientista do clima do Massachusetts Institute of Technology (MIT), à National Public Radio, dos Estados Unidos. A devastação que se seguiu foi proporcional.

DESTRUIÇÃO
As cidades de Guiuan (acima) e Tacloban foram devastadas
por ventos de 315 km/h e ondas de quatro metros

Não é difícil entender o raciocínio de Sano e de um corpo crescente de especialistas em clima que associam o aumento da força e da frequência de fenômenos atmosféricos incomuns, como os supertufões, ao aquecimento global. Tufões se alimentam, fundamentalmente, de água do mar aquecida. Com a elevação das temperaturas atmosféricas em função do aquecimento global, as águas do mar se aquecem mais e em áreas mais extensas. Embora cautelosos – o raciocínio requer montanhas de dados para ser comprovado –, até os estudiosos do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), órgão tido como referência mundial no assunto, já reconhecem como provável o vínculo entre aquecimento global e tufões mais intensos. Ou seja, a julgar pelas evidências e os repetidos fracassos nas tentativas de colocar em prática políticas que possam vir a reduzir o aquecimento global, quem vive nas rotas desses destruidores deve se preparar para encarar tufões cada vez mais fortes e frequentes.

RESGATE
Voos militares tiraram alguns sobreviventes de Tacloban
Investir em sistemas de previsão de tempo altamente sofisticados e na divulgação dessas informações pode ser um caminho para reduzir o impacto das tragédias. De acordo com um analista regional da Aon Benfield, multinacional do ramo de seguros e resseguros, hoje boa parte das previsões de eventos atmosféricos extremos no Pacífico é feita apenas com informações de satélites, sendo que observações conduzidas por especialistas e equipamentos meteorológicos instalados em aviões costumam ser mais precisas. Retomar esses voos e refinar os sistemas de previsão não faria mal a ninguém. “Às vezes, não importa o quanto a gente se prepara, o desastre é simplesmente grande demais”, lamenta Zhang Qiang, especialista em mitigação dos efeitos de grandes desastres da Beijing Normal University, na China. Parece que foi o caso do encontro entre Haiyan e as Filipinas.

Fotos: Erik De Castro/reuters; NOEL CELIS/afp photo; Bullit Marquez/AP Photo; Bullit Marquez/AP Photo
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