14 de set de 2016

Atenção, pais: não mandem os filhos para os EUA

Casos de adolescentes brasileiras barradas na imigração e detidas em albergues por vários dias escancaram os exageros das autoridades americanas e os riscos a que se submetem os jovens que viajam sozinhos

Atenção, pais: não mandem os filhos para os EUA
BARRADAS Da esq. para a dir., Anna Beatriz, Anna Stephanie e Lilliana: as três adolescentes detidas pela imigração americana
Três garotas, o mesmo sonho, o mesmo desfecho. Em cinco meses, pelo menos três adolescentes brasileiras foram proibidas de entrar nos Estados Unidos quando desembarcavam no país. Casos diferentes, mas nas três situações as jovens foram encaminhadas para albergues de menores imigrantes sem saber o motivo de sua detenção, nem quanto tempo ficariam por lá. Foram tratadas como criminosas e deixaram famílias desesperadas no Brasil. “Quando cheguei ao albergue, colocaram um saco preto na minha cabeça para matar piolhos e pensei comigo ‘meu Deus, onde estou?’. Fiquei desesperada”, diz Anna Beatriz Theophilo Dutra, 18 anos, de Palmas (TO). Na época em que foi barrada, em abril deste ano, a brasileira tinha 17 anos e estava com toda a documentação em dia. Depois de 15 dias presa em um albergue em Chicago, Anna Beatriz voltou ao Brasil. Outro caso de prisão sem sentido, a recém-liberada Anna Stephanie Radeck, 16 anos, ficou 20 dias detida no mesmo local e retornou ao Brasil na quinta-feira 1. A última prisão foi de Lilliana Matte, 17 anos, de Boa Vista (RR), em 22 de setembro. Na sexta-feira 9, porém, foi solta e retornou ao País. “Ela chamou a atenção de um policial por fazer uma selfie em área restrita. Quando viram que era menor desacompanhada, foi barrada, mesmo com a documentação necessária e acompanhada de dois casais de amigos da família”, afirma a mãe, Anaide Matte.
As dramáticas histórias dessas adolescentes brasileiras, inocentes maltratadas em prisões num país estranho e deixadas à deriva pelos consulados locais, mostram que há um novo status quo estabelecido pela imigração nos Estados Unidos. O fato não passa despercebido porque essa juventude, mesmo municiada de todos os documentos necessários, tem sido barrada de forma inclemente. Diante dessa realidade, chega-se à conclusão de que não é recomendável mandar os filhos menores para os Estados Unidos. A política de imigração dos americanos sempre foi severa, e tem recrudescido cada vez mais, à medida que aumenta a ameaça terrorista no mundo. Mas atingir jovens cujo único objetivo é passear na Disney é um absurdo. Mais do que isso, mantê-las sob restrições severas – as garotas tiveram de usar uniforme, tomar até dez vacinas e foram privadas do contato – é um ato de crueldade.
Complicadores legais
Ingrid Baracchini, advogada especialista em imigração, diz que um menor entrar sem um responsável legal é um risco. “A imigração não permite que o jovem entre sozinho porque, se algo acontecer, será responsabilidade do Estado”, diz Ingrid. Caso o menor seja barrado, ele não pode decidir sozinho pela remoção voluntária. “Por isso essas meninas foram encaminhadas para albergues”, afirma a advogada. Thiago Oliveira, CEO da Globalvisa, empresa de assessoria que atende brasileiros que queiram viajar para o exterior, considera os casos das adolescentes barradas como “situações de caráter humanitário”. “Por um lado, o governo americano vem fazendo esforços para atrair brasileiros, porque é um povo que consome muito. Mas, se fosse mesmo isso, eles deveriam adotar procedimentos mais dignos”, diz. Segundo Oliveira, a quantidade de vistos negados para brasileiros tem aumentando, o que teria relação com a crise econômica. Consultada, a embaixada dos EUA no Brasil afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa que não iria comentar os casos. Ingrid Baracchini, advogada especialista em imigração, diz que um menor entrar sem um responsável legal é um risco. “A imigração não permite que o jovem entre sozinho porque, se algo acontecer, será responsabilidade do Estado”, diz Ingrid. Caso o menor seja barrado, ele não pode decidir sozinho pela remoção voluntária. “Por isso essas meninas foram encaminhadas para albergues”, afirma a advogada. Thiago Oliveira, CEO da Globalvisa, empresa de assessoria que atende brasileiros que queiram viajar para o exterior, considera os casos das adolescentes barradas como “situações de caráter humanitário”. “Por um lado, o governo americano vem fazendo esforços para atrair brasileiros, porque é um povo que consome muito. Mas, se fosse mesmo isso, eles deveriam adotar procedimentos mais dignos”, diz. Segundo Oliveira, a quantidade de vistos negados para brasileiros tem aumentando, o que teria relação com a crise econômica. Consultada, a embaixada dos EUA no Brasil afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa que não iria comentar os casos.
As duras normas americanas
Basicamente, é impedido de entrar nos Estados Unidos quem já trabalhou ilegalmente no país, quem é suspeito de querer ficar mais tempo do que o respectivo visto permite, quem não consegue provar que tem dinheiro para se manter, já foi condenado criminalmente ou tem ligações com grupos terroristas. Mas, por vezes, as razões beiram o inexplicável. Como, por exemplo:
Em 2013, Niels Gerson Lohman, um escritor dinamarquês, não pode entrar no país porque anteriormente tinha viajado para países muçulmanos, como Iêmen e Malásia
Em 2012, dois jovens britânicos ficaram detidos durante 12 horas após desembarcarem nos EUA por terem postado mensagens no Twitter dizendo que planejavam “destruir a América”, referindo-se a uma gíria para “festa”
Em 2007, Andrew Felmar, psicoterapeuta canadense, foi barrado quando um agente da imigração pesquisou seu nome na internet e descobriu que ele havia escrito, 40 anos antes, um artigo sobre LSD
ANGÚSTIA Anna Beatriz Theophilo Dutra posa com a mãe, Leide Theophilo, na data do seu retorno ao Brasil, após 15 dias presa nos EUA
ANGÚSTIA Anna Beatriz Theophilo Dutra posa com a mãe, Leide Theophilo, na data do seu retorno ao Brasil, após 15 dias presa nos EUA
“Fiquei desesperada”
A brasileira Anna Beatriz Theophilo Dutra, à época com 17 anos, foi presa pela imigração americana em abril, durante 15 dias. Nessa entrevista ela conta à ISTOÉ os momentos de aflição que viveu
O que aconteceu quando você desembarcou nos Estados Unidos?
Eu respondi às perguntas do agente da imigração, parecia que tudo corria normalmente quando fui encaminhada para outra sala. Depois de uma hora, uma mulher me chamou. Ela chegou a dizer que sabia que eu tinha um namorado nos EUA.
Depois disso, o que houve?
Falaram que eu teria de passar três dias em Chicago para ter uma audiência com um juiz. Aí cheguei a um lugar onde me entregaram roupas e me colocaram um saco de lixo na cabeça com um produto para matar piolhos. Não explicaram absolutamente nada, apenas diziam que depois eu ia entender. Comecei a ficar desesperada.
Como era a rotina no albergue?
Tínhamos que acordar todo dia às 6h30. Aí limpávamos quarto e banheiro, tomávamos café e lavávamos a louça.
O que aconteceu depois que você foi liberada?
Ainda no albergue me pediram para assinar uma deportação voluntária. Como eu não havia feito nada de ilegal, me recusei, e uma advogada orientou minha mãe a incluir uma cláusula no documento dizendo que eu saía voluntariamente do país, mas não que aceitava a deportação.
Você tinha planos de continuar viajando?
Sim, iria para o Canadá. Mas quando voltei ao Brasil fiquei uma semana sem sair de casa e.meu cabelo começou a cair. Minha mãe me convenceu e estou aqui agora. Engraçado é que, na conexão nos Estados Unidos para cá, fui levada para a sala de novo. A agente da imigração chegou a me dizer que, se da primeira vez o caso estivesse com ela, teria cancelado meu visto.
Fotos: Arquivo pessoal

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