Aliança que tem garantido sobrevida a Eduardo Cunha na Presidência da Câmara promove uma agenda no Congresso que choca a sociedade ao suprimir direitos e aprovar projetos em benefício próprio
Débora Bergamasco e Marcelo Rocha
A sociedade
nunca imaginou pagar um preço tão alto pela permanência de Eduardo Cunha
(PMDB-RJ) no comando da Câmara. Enquanto manobras regimentais ainda lhe
garantem impressionante sobrevida, os brasileiros assistem estupefatos
ao avanço de uma agenda retrógrada no Congresso, que suprime direitos
conquistados a duras penas pela população. Nos últimos dias, foi
possível perceber com muito mais clareza que o desserviço ao País
prestado pela indefinição do caso Cunha não decorre apenas da manutenção
na presidência da Câmara de uma figura envolvida até o pescoço com as
traficâncias na Petrobras, como se isso já fosse pouco, graças a uma
aliança tácita celebrada com determinados parlamentares e grupos
políticos do Congresso. É pior do que isso. O acordão em que estão
incluídas não só as bancadas conservadoras da Bala, Bíblia e Boi,
apelidadas pejorativamente de “BBB”, como setores do próprio PT, produz
efeitos colaterais que causam danos à sociedade. Como não lamentar o
Projeto de Lei 5.069, que dificulta o aborto de mulheres vítimas de
violência sexual, aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ), no dia 21 de outubro? E a aprovação de um Estatuto, no dia 24 de
setembro, que define como família apenas as relações entre homens e
mulheres, no momento em que os brasileiros lutam contra a discriminação a
homossexuais?

BALA NA AGULHA
Bancadas aliadas a Eduardo Cunha (acima entre os dólares), como a ligada à
indústria armamentista, integrada por Alberto Fraga e Jair Bolsonaro (abaixo),
conseguem aprovar suas pautas, ao passo que setores considerados
progressistas, representados pela deputada Maria do Rosário,
que condena o trabalho escravo, acumulam derrotas


Na terça-feira 27, ao analisar mudanças no
Estatuto do Desarmamento numa Comissão Especial, os deputados da bancada
da bala, ligados à indústria armamentista ou ex-agentes das forças de
segurança, aprovaram o Projeto de Lei 3722, de 2007, que busca estender o
direito ao porte de arma a diversas categorias, tornando-o um
procedimento mais simples do que o necessário para tirar uma carteira de
motorista. Na prática, ela acaba com o Estatuto do Desarmamento,
aprovado em referendo pela maioria dos brasileiros em 2003 e que salvou
160 mil vidas, segundo a estimativa de estudo da ONG Sou da Paz. Na
Comissão de Agricultura, a bancada ruralista obteve uma vitória
inacreditável na última semana. Aprovou proposta que altera o Código
Penal (Decreto-Lei 3.689/41), retirando do texto termos como “jornada
exaustiva” e “condições degradantes de trabalho” da definição do crime
de trabalho escravo. Foi uma resposta dos ruralistas aos efeitos da
Emenda Constitucional 81, que prevê a expropriação de imóveis rurais e
urbanos onde for constado trabalho análogo à escravidão. Pela emenda, os
imóveis desapropriados por essa razão serão destinados à reforma
agrária ou a programas de habitação popular, sem indenização ao
proprietário. A proposta foi apresentada em 2012. Nada ocorreu com ela
em 2013 e 2014. Agora, deixa a gaveta. Foi encaminhada para Comissão de
Trabalho como matéria “prioritária”. “Como essas bancadas se mostram
menos sensíveis à opinião pública, defender essas temas no Parlamento
não é um problema para eles”, diz o deputado Ivan Valente (PSOL-SP).
As alas que patrocinam o atraso sempre
existiram no Congresso, composto por 513 deputados e 81 senadores, e
eleito de modo a representar a pluralidade dos eleitores brasileiros. O
fato em si não constitui uma novidade. A diferença é que agora esses
segmentos conseguem vencer as grandes batalhas na Casa. O triunfo da
pauta do retrocesso tem sido pavimentado por uma espécie de acordo não
declarado entre Cunha e as bancadas compostas por parlamentares da
Frente Parlamentar de Segurança Pública (“Bala”) com 300 deputados, a
Frente Parlamentar da Agropecuária (“Boi”), com 215 deputados e 21
senadores, e a Frente Parlamentar Evangélica (“Bíblia”), com 92
deputados e 5 senadores. Esses grupos foram essenciais para a eleição de
Cunha à presidência da Câmara e, neste momento, são ainda mais
imprescindíveis para que ele se mantenha no cargo. “A aprovação dessas
pautas já vinha acontecendo desde que Cunha assumiu a Casa. Mas agora,
com a crise atual, isso se intensificou”, afirma a deputada Janete
Capiberibe (PSB -AP). Eles atuam numa espécie de simbiose. Cunha está à
beira do cadafalso. Precisa da sustentação desses parlamentares para
ganhar um respiro. Os aliados de Cunha, por sua vez, não estão a perigo,
mas seus projetos podem ser esvaziados se o peemedebista for apeado do
poder. “Ao patrocinar todo esse retrocesso constitucional, ele (Cunha)
assegura a proteção que necessita. E vice-versa”, afirma Arnaldo Jordy
(PPS-PA), um dos autores da representação contra o colega.

COM AS BÊNÇÃOS DE CUNHA
O pastor Marco Feliciano, do PSC, é uma das expressões
no Congresso da bancada da Bíblia
O retrocesso nos costumes e a retirada de
direitos constituem apenas uma das faces sombrias da Câmara comandada
por Cunha, sob a conivência de setores que ainda o sustentam. Em vez de
votarem as medidas do ajuste fiscal, necessárias ao equilíbrio das
contas públicas, há a tentativa de aprovação de projetos casuísticos que
visam a atender tão somente interesses das vossas excelências e, o que é
pior, ainda elevam despesas. É o caso do aumento do Fundo Partidário e
a construção do “Parlashopping”, uma brincadeira que funde as palavras
Parlamento e Shopping Center. Esta possibilidade entrou como um “jabuti”
em uma Medida Provisória que foi aprovada pela Câmara e sancionada pela
presidente Dilma Rousseff em junho deste ano. A ideia inicial dos
idealizadores do projeto é a de fazer novos anexos no Congresso Nacional
que abrigue gabinetes de parlamentares, garagem e também salas
comerciais, como um shopping mesmo. O tema chegou a caminhar com certa
celeridade, mas diante de forte resistência popular – pois o custo total
estimado em R$ 1 bilhão foi considerado impraticável para o atual
momento de aperto fiscal – parte do projeto foi adiado. Ainda assim,
está mantida a intenção de construir um dos prédios, avaliado em mais de
R$ 300 milhões.
Quando a questão é “legislar em causa
própria”, e não de acordo com os anseios da população, até mesmo parte
do Senado, que tem uma composição considerada menos radical,entra na
festa. Um exemplo é a condução das CPIs, que vem deixando muito a
desejar. Nesta semana, a Comissão Parlamentar de Inquérito do Carf
recusou por unanimidade os pedidos de convocação do empresário Luís
Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, e dos ex-ministros
Gilberto Carvalho e Erenice Guerra. Eles são investigados na Operação
Zelotes, suspeitos de participar da comercialização de decisões do
Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão ligado ao Ministério
da Fazenda. O presidente da Comissão, Ataídes de Oliveira (PSDB-TO),
apresentou os requerimentos de convocação, mas foi voto vencido.

ENFIM, O RELATOR
Fausto Pinato, do PRB paulista, promete isenção ao emitir parecer sobre Cunha
Claro. No acordão para evitar o
comparecimento à CPI do filho do ex-presidente e ex-ministros do governo
petista também foram enxergadas as digitais dele, Eduardo Cunha, cujo
processo por quebra de decoro é hoje um dos exemplos mais bem acabados
sobre o comportamento da Câmara ditado por interesses particulares. Com
uma significativa rede de proteção, que inclui, além das bancadas mais
conservadoras, os partidos de oposição interessados no impeachment da
presidente Dilma Rousseff, e os próprios petistas, preocupados em
salvá-la, as investigações na Casa sobre o envolvimento dele no esquema
do Petrolão se arrastam. Somente na quinta-feira 5, foi designado um
relator para cuidar do processo no Conselho de Ética: Fausto Pinato
(PRB-SP), parlamentar ligado a Celso Russomano. A representação contra
Cunha foi apresentada pelo PSOL e Rede Sustentabilidade havia quase um
mês. O processo chegou a ficar 21 dias parado apenas para a trivial
tarefa de conferência de assinaturas. No comando da Câmara, Cunha usa o
Regimento Interno para segurar o quanto pode a tramitação do processo.
As chicanas continuarão a ser usadas de todas as formas até o recesso
parlamentar, marcado para 17 de dezembro. Apesar da frágil defesa do
peemedebista, que atribuiu dinheiro na Suíça a uma venda de carne
enlatada para a África, tudo indica que definição do caso ficará para
2016. Pobre Congresso.

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