Ao consolidar o controle do país após
as eleições municipais, o presidente da Venezuela dificulta uma reação a
sua ditadura bolivariana
André Sollitto
DITADOR Nicolás Maduro vota com o retrato de Simón Bolívar ao fundo: poucas chances da oposição em 2018 (Crédito:CARLOS BECERRA)
Alheio à crise que devasta a Venezuela, o presidente Nicolás Maduro,
em sua última manobra política, conseguiu legitimar mais uma fraude que
faz do seu governo uma ditadura. Nas eleições municipais realizadas no
domingo 10, o presidente e o Partido Socialista Unido da Venezuela
aproveitaram-se de um boicote organizado de maneira pouco efetiva pela
oposição para conquistar 308 das 335 prefeituras do país. Com o poder
consolidado, ele anunciou que todos aqueles que participaram do boicote
não poderão disputar as próximas eleições presidenciais, previstas para o
segundo semestre de 2018. Enquanto seus opositores lutam para se unir,
Maduro aproveita a falta de organização para planejar sua reeleição.
“O governo venezuelano sabe que perderá nas urnas se oferecer
tudo o que a oposição pede. Por isso, é difícil ficar otimista”
David Smilde, professor de Sociologia da Universidade de Tulane
Erro de estratégia
“Um boicote, se bem realizado, pode deslegitimar um governo”, afirma
David Smilde, pesquisador de América Latina e professor de Sociologia da
Universidade de Tulane, nos Estados Unidos. “É uma estratégia
arriscada, porque significa que você abre mão de cargos eleitorais que
normalmente ganharia para um governo que supostamente já está abusando
do poder. Nesse caso, foi o pior cenário possível”, diz. O boicote foi
apenas parcial. Os principais partidos da oposição resolveram aderir,
incluindo o Vontade Popular, de Leopoldo López, e o Primeira Justiça, de
Henrique Caprilez, que perdeu por pouco as eleições presidenciais de
2013. Mas candidatos de menor expressão participaram do pleito. Para
piorar, apenas 47,32% dos eleitores foram às urnas. O resultado foi mais
uma vitória expressiva do partido de Maduro. A oposição já havia
perdido poder nas eleições regionais, em outubro. Assim como no pleito
do dia 10, a maior parte da população simplesmente deixou de votar. Sem
uma liderança unificada, é possível que o resultado de domingo não fosse
muito diferente, mesmo se nenhum partido tivesse aderido ao boicote.
Mas o problema é maior agora, já que as prefeituras na Venezuela têm
papel importante. Elas podem aumentar seus fundos por meio de taxas e
têm suas próprias forças policiais, responsáveis por controlar os
protestos. Em cidades dominadas pelo governo, portanto, será bem mais
difícil organizar manifestações contrárias a Maduro. BOICOTE
Além da ausência de candidatos dos principais partidos de oposição, a
própria população não foi às urnas (Crédito:CARLOS BECERRA)Penúria econômica
A manobra do presidente venezuelano foi criticada pelos Estados
Unidos. “A tentativa de Maduro de banir partidos opositores das eleições
presidenciais é outra medida extrema para fechar o espaço democrático
na Venezuela e consolidar o poder de sua ditadura autoritária.” escreveu
Heather Nauert, porta-voz do Departamento de Estado americano, em seu
Twitter.
A situação da Venezuela inspira pouca confiança tanto para a
população quanto para os partidos opositores. A inflação continua
subindo e o Fundo Monetário Internacional estima que ela possa chegar a
2.068,5% em 2018. Comida e remédios estão acabando, a criminalidade
aumentou e a produção de petróleo, responsável por 95% das exportações
do país, cai todos os dias. Os Estados Unidos impuseram sanções ao país,
proibindo negociações sobre títulos emitidos pelo governo venezuelano
ou pela estatal petrolífera PDVESA e sobre novas dívidas. Na política
interna, as eleições presidenciais, previstas para o segundo semestre,
podem ser remarcadas para o primeiro semestre. Dessa maneira, Maduro
seria ainda mais beneficiado pela falta de união da oposição.
“Maduro tem a vantagem política, mas seu ponto fraco é a economia”,
diz David Smilde. Mesmo mostrando que não se importa em empobrecer a
população para se sustentar financeiramente, o governo encontra
dificuldades para achar financiadores após as sanções americanas.
Rodadas de negociação realizadas na República Dominicana entre aliados
de Maduro e a oposição oferecem uma pequena esperança para ambos os
lados. Se os opositores forem atendidos em alguns pleitos importantes,
pode ser que o governo americano alivie as restrições.
De acordo com Javier Corrales, professor de ciência política da
Amherst College (EUA), regras mais claras em 2018 e a realização de uma
primária para escolher um candidato único devem ser os principais pontos
da estratégia dos partidos de oposição. É preciso ainda que haja tempo
para mobilizar os eleitores e garantir testemunhas nas cabines de
votação. “É difícil enfrentar o autoritarismo em eleições municipais. É
mais fácil competir nas eleições presidenciais”, diz Corrales. Mesmo
assim, dificilmente o presidente oferecerá condições propícias. “O
governo sabe que perderá se permitir tudo isso”, diz David Smilde. “É
difícil ficar otimista”, afirma.
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