As indecentes regalias desfrutadas pelo
ex-governador Sérgio Cabral na carceragem de Benfica só encontram um
paralelo na história: a prisão colombiana de aspectos cinematográficos
que abrigou o traficante Pablo Escobar na década de 90
DOCE VIDA
Um detento tratado como rei na cela com direito a comida de
restaurante, grade aberta e outras benesses, quase como em um hotel
(Crédito: Fábio Motta)
Eliane Lobato
O Brasil passou a adotar o modelo carcerário colombiano para
presos especiais, como o utilizado pelo narcotraficante Pablo Escobar
(1949-1993), que mandou construir uma prisão só para ele, chamada de “La
Catedral”, devido ao luxo e dimensões extraordinárias. O bandido ditava
as ordens no local, apelidado de Hotel Escobar. Até banheira com
hidromassagem e cama giratória havia na sua cela em Envigado, perto de
Medelín, onde ficou preso um ano. No Rio de Janeiro, as coisas não andam
muito diferentes. Após sucessivas descobertas de luxos e privilégios
nas celas do ex-governador Sergio Cabral (PMDB) e de sua mulher Adriana
Ancelmo, além do presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, e
de outros deputados e empresários corruptos, todos presos na Cadeia
Pública José Frederico Marquês, em Benfica, o lugar já está sendo
conhecido como “Spa de Benfica” e “Cadeia do PMDB: Partido dos Malandros
do Benfica”.
As listas de irregularidades na Cadeia de Benfica são enormes e giram
em torno de Cabral, apontado como chefe de uma quadrilha de criminosos
que desviaram quase R$ 1 bilhão dos cofres do Rio. Os principais
integrantes da organização criminosa estão quase todos presos, mas há os
que estão na administração do presídio e alguns do lado de fora
colaborando fielmente com o grupo preso, propiciando-lhe toda sorte de
benefícios ilegais. Foi o que aconteceu com a instalação de um Home
Theater com TV de 65 polegadas e moderna aparelhagem de DVD para que a
quadrilha pudesse assistir a filmes e séries. Devido ao escândalo, as
autoridades carcerárias recuaram e retiraram a aparelhagem. Mas não lhes
tiraram a regalia de ter juntado todos eles na Galeria C, com uma cela
ao lado da outra. A de Cabral é a C-9. E, pior, com as portas das celas
permanentemente abertas.
A Catedral de Escobar
Na década de 90, o megatraficante Pablo Escobar (foto no detalhe)
mandou construir um presídio para abrigá-lo em Envigado, perto de
Medelín. A cadeia, à imagem e semelhança com o presídio de Sérgio
Cabral, mais parecia um resort, edificado no meio de uma densa área
verde, com banheira, hidromassagem, cama giratória, discoteca, bar,
campo de futebol e até casa de bonecas para sua filha menor. Ele ficou
preso lá de junho de 1991 a julho de 1992. Escapou desse paraíso porque o
governo colombiano queria levá-lo para uma prisão nos EUA. “Melhor uma
cova na Colômbia do que uma prisão nos EUA”. Ele morreu assassinado em
1993, numa tentativa de fuga.
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Narcodolares Escobar usou a fortuna amealhada com o tráfico de drogas para erguer a “La Catedral”
Gargalhadas e carteado
Coordenado pelo capo dom Cabral, todos os integrantes do grupo
criminoso do Rio se reúnem na cela do ex-governador, para animadas
conversas e agitadas noitadas, movidas a jogos de baralho e regadas a
fartas refeições com queijos franceses, presuntos portugueses, além de
finos pratos adquiridos de restaurantes sofisticados das redondezas, à
base de camarão e outras delícias. No desjejum pela manhã, não falta à
Cabral e sua turma iogurte Actívia, queijo de cabra e castanhas
variadas.
Os itens dessa luxuosa gastronomia foram apreendidos na inspeção
realizada na sexta-feira 24 pelo Grupo de Atuação Especializada em
Segurança Pública (Gaesp), coordenado pela promotora Andréa Amin. Cabral
alegou que algumas das iguarias – como o iogurte Actívia – eram
adquiridas lá dentro mesmo da cantina da carceragem de Benfica. Se
comparado ao menu dos demais presídios do Brasil, o iogurte de Benfica
já seria um privilégio sem precedentes. Cabral e sua turma estabeleceu
um novo padrão de reclusas para criminosos de extensa ficha corrida.
Como ele.
Cabral dorme em confortáveis colchões
usados na Olimpíada do Rio, no ano passado, e que foram doados para a
cadeia apelidada de “SPA de Benfica”
Por exemplo, como ocorre em todos os presídios do País, há uma hora
em Benfica em que o detento cansa. Só que lá, ao contrários dos demais, o
ex-governador e sua turma dormem confortavelmente em colchões densos,
usados por atletas dos Jogos Olímpicos no Rio no ano passado e que foram
doados para a Cadeia de Benfica, reformada unicamente para abrigar o
ex-governador, que, até então, estava no Presídio de Bangu. Não que ele
não tivesse mordomias lá, pois até dormia na biblioteca com ar
condicionado. É que Cabral considerava Bangu muito depressivo. Em
Benfica, as condições são incomparavelmente melhores. A cadeia é nova,
as celas têm chuveiro quente, pias, filtros para água, cafeiteiras
elétricas. As camas têm roupas brancas superlimpas. Cabral teria até um
segurança no presídio, segundo apuraram os promotores. Trata-se do
ex-policial Flávio Melo. Ele realizaria pequenos serviços para o
ex-governador na cadeia, em troca de compensações financeiras.
O fato do ex-governador e seu grupo estarem recebendo refeições
vindas de restaurantes caros, o que é proibido, quase o condenou a ter
de passar os dias numa cadeia dura, um presídio federal. O uso de comida
de restaurantes foi um dos motivos que levaram o juiz Marcelo Brêtas,
da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, a pedir a transferência de Cabral,
em outubro, para o presídio de segurança máxima de Campo Grande, no Mato
Grosso do Sul. Lá está preso o traficante Fernandinho Beira Mar, que
reclama horrores desse presídio. Porém, o ministro Gilmar Mendes,
relator da Lava Jato no estado, decidiu mantê-lo em Benfica. E a farra
seguiu liberada.
Dez mil horas
O Ministério Público do Rio quer saber agora de quem é a
responsabilidade por essas mordomias. Para isso, promotores estão
analisando dez mil horas de imagens geradas somente no mês de novembro
por 16 câmaras instaladas na Cadeia de Benfica. Em uma das imagens,
Cabral e Picciani são flagrados em reunião na cela 9, sentados
confortavelmente e com as grades escancaradas. Para a promotora Andréa
Amin, a própria reforma da cadeia de Benfica já sugere anormalidade. “É a
primeira vez que vejo uma reforma tão rápida de uma unidade prisional.
Fugiu do padrão normal das obras da Secretaria de Administração
Penitenciária (Seap)”, afirmou ela em entrevista (leia mais ao lado).
Por ter sido comandante-geral da PM do Rio na gestão de Cabral, o
secretário Erir Ribeiro Costa Filho é considerado em uma “situação
complexa” pela magistrada: “Ele não deve a carreira toda ao
ex-governador, mas teve, claro, uma proximidade muito grande com Cabral
no período em que foi governador. Se isso pode levar a um tratamento
diferenciado? Não sei.” O secretário será ouvido pelo MP. A “Catedral”
de Escobar acabou virando convento de beneditinos, depois que o
traficante morreu. Já a “Catedral” de Cabral parece que vai ficar em
funcionamento por muitos anos. O ex-governador foi condenado a 45 anos
pelo juiz Marcelo Bretas e a 14 anos pelo juiz Sergio Moro. Até agora. “Servidores envolvidos poderão ser presos” A FISCAL
A promotora Andréa Amin fiscalizou a cadeia onde Cabral está preso e
constatou a mordomia (Crédito:Hermes de Paula / Agencia O globo)
A Coordenadora de Fiscalização do Ministério Público do Rio,
promotora Andréa Amin, que na semana passada vistoriou na Cadeia Pública
José Frederico Marquês, em Benfica, para constatar as mordomias
recebidas pelo ex-governador Sérgio Cabral e membros da sua quadrilha,
presos no local, ficou espantada com o que viu. Em entrevista à ISTOÉ,
ela conta os bastidores da vistoria e quais serão os próximos passos da
inestigacão do MP: Qual foi a reação do ex-governador à vistoria?
Quando os agentes começaram a vasculhar as geladeiras improvisadas na
cela, ele perguntou: ‘Estão procurando fuzil, droga, crack, alguma coisa
assim?’ Aí o dr. Paulo Roberto, meu subcoordenador do Grupo de Atuação
Especializada, respondeu: ‘Não, se assim fosse, estaríamos lavrando um
auto de prisão em flagrante.’ Ele se afastou. A vistoria foi para apurar a existência de privilégios?
A denúncia era nesse sentido. Na C9, que é a cela do Sérgio Cabral,
encontramos, além da comida não permitida, também uma chaleira elétrica,
o que é proibido. Lá, tem colchões mais altos e mais grossos enquanto
em outros lugares, como no andar da triagem, alguns nem tinham colchões
para dormir. Também chamou nossa atenção a semelhança das embalagens das
comidas, que poderiam ter sido fornecidas pela mesma pessoa ou
estabelecimento. Os lençóis muito brancos, alvíssimos, os filtros de
água iguais. Tudo isso só tinha na galeria C. Os indícios de privilégios
são fortes. Vocês compararam com as outras galerias?
Sim. A galeria A, por exemplo, tem seis presos por cela e a galeria C, a
do Cabral, apenas 4. Em nenhuma outra encontramos a mesma quantidade,
fartura, tipo de comida ou padrão alvíssimo de roupas. Quais serão os próximos passos do relatório?
Não tenho prazo. É complexo. Prefiro pecar pela cautela do que ser
açodada. Vamos ouvir os servidores, agentes e também o secretário Erir
(Ribero Costa Filho, de Administração Penitenciária), porque tudo isso
se passa embaixo de seus olhos, dentro da Secretaria que ele é
responsável. Servidores eventualmente envolvidos nas benesses concedidas à turma de Cabral podem ser punidos?
Podem ser afastados das funções e chegar à perda do cargo. No campo
criminal, comprovado eventual crime de prevaricação ou corrupção, a pena
é de prisão. O MP pode pedir a transferência de Cabral para outro presídio?
Não, porque o preso não é da esfera estadual, ele é da área federal.
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