AFP PHOTO / ALEJANDRO PAGNI
O que ocorre na Venezuela nos últimos tempos é de uma aberração sem
tamanho. Um alerta dramático de como ditadores – de qualquer vertente
política – ainda podem impor, na base da força, regimes insanos e
sanguinolentos à população. Mais de uma centena de pessoas já morreram
covardemente, abatidas a tiros por policiais e tropas de choque, por
gritar contra as barbaridades de Nicolás Maduro. Assassinatos
autorizados à luz do dia, nas ruas, sem punições, com o endosso do
Estado. É a aniquilação completa da democracia naquele país. Os
flagrantes chocam. Revoltam. Hordas de habitantes em filas sem fim para
comprar remédio, comida, bens essenciais que já nem existem para todo
mundo. Empresas batendo em retirada, receosas de terem seus negócios
incorporados ao espólio estatal, sem aviso. Se nada for feito, com a
intervenção da ONU, do Mercosul e de outros organismos multilaterais, a
nação caminha para a inviabilidade. Social, política e econômica. O
marco definitivo do autoritarismo perverso de Maduro se deu na semana
passada com a imposição de uma constituinte falsa para rasgar direitos
gerais. Representou, na prática, a destruição das liberdades civis,
acompanhada da perseguição à imprensa e da dissolução do Congresso
legitimamente escolhido. Uma vergonha que chocou o mundo civilizado e
provocou justas retaliações. Criada na base de eleições ilegítimas,
inconstitucionais e impopulares – com uma participação ínfima de votos,
arrancados na base da chantagem e da ameaça junto a massas de manobra -,
a constituinte serviu de pretexto para novos abusos. Com ela Maduro
tenta, na verdade, sufocar a resistência a um governo que faliu. Ele
extrapolou de vez nesse último movimento. Destituiu as forças
opositoras. Prendeu os líderes adversários que condenam seus métodos.
Colocou a mulher e o filho para legislar. Fez o diabo. Passa, daqui por
diante, a administrar sem qualquer suporte que não o das armas.
Passeatas, greves gerais, quebra-quebra nas ruas dão o tom da ebulição
vivida ali. Empresários, trabalhadores, financistas e autoridades
internacionais se colocaram contra as decisões tomadas. Nem um
plebiscito simbólico, realizado recentemente, e que levou mais de sete
milhões de venezuelanos a dizerem “Não” à constituinte demoveram o
mandatário. Nesse contexto o país se aproxima perigosamente de uma
guerra civil. Maduro atua como um déspota, um fascista sórdido que só
mira o poder, independentemente das consequências caóticas que vem
causando à população. A inflação anual, até onde é possível realmente
medir, ultrapassou os 700%. Aeroportos não funcionam mais. As companhias
aéreas estão suspendendo linhas regulares por temor de incidentes. O
desemprego é gigantesco e o ritmo de fechamento de empresas está batendo
recorde sobre recorde. A moeda local formalmente não existe mais. E a
máquina pública parou por falta de recursos. Só mesmo obtusos
governantes e partidários cegos continuam apoiando o sucesso de Chávez.
Na esfera global, apenas Bolívia, Nicarágua e El Salvador concordaram
com a medida. No Brasil, a líder petista Gleisi Hoffmann, que dá
caudalosas demonstrações de ter perdido o senso sobre o que é
democracia, não apenas aplaudiu Maduro como escreveu artigo favorável a
suas decisões. Gleisi, para quem comanda uma agremiação chamada de
Partido dos Trabalhadores, desconsidera a vontade da maioria. Fecha os
olhos aos crimes notórios do venezuelano. Usa de alegação furada e
distorcida a ideia de que qualquer votação é válida, mesmo aquelas que
não passam de torpe encenação. Há de se perguntar à ilustríssima
senadora: era exatamente isso que a senhora e os seus correligionários
sonhavam implantar no Brasil? A verdade é que escapamos por pouco. Na
toada em que os governos Dilma e Lula saquearam os cofres nacionais e
implodiram com a economia, logo, logo chegaríamos lá. O impeachment da
petista interrompeu, no último minuto, um destino semelhante e terrível
também para os brasileiros.
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