12 de jul de 2017

Os passageiros sumiram

Crise econômica impõe ao setor aéreo a maior crise em mais de uma década e obriga companhias a repensarem o modelo de negócios para diminuir prejuízos

Crédito: Filipe Frazão
ÀS MOSCAS Terminal vazio no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo: a classe C deixou de voar (Crédito: Filipe Frazão)
Foi-se o tempo em que as áreas de embarque dos aeroportos ficavam lotadas. Pessoas de todas as classes sociais aguardavam para levantar voo e explorar destinos nacionais e internacionais. Nos últimos anos, milhões de brasileiros trocaram os terminais rodoviários pelos aeroportos, atraídos pelas vantagens e preços acessíveis oferecidos pelas companhias. A crise econômica, porém, acabou com a festa. O setor aéreo enfrenta agora grave turbulência – a mais séria em 11 anos. De acordo com um relatório da Agência Nacional de Avião Civil (Anac), em 2016 o número de viajantes caiu 6,9%, considerando trajetos nacionais e internacionais, no pior resultado desde 2007. Para se ter ideia, 117,7 milhões de pessoas foram transportadas em 2015, um recorde histórico. No passado, foram 109,6 milhões, o que significa que 7,5 milhões de pessoas deixaram de voar. “A recessão e a queda no poder de compra dos brasileiros afetaram drasticamente a aviação, e a perspectiva é de que não haverá retomada nos próximos meses”, afirma Eduardo Sanovicz, presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).
NOVAS ESTRATÉGIAS

O fim dos anos de ouro para o setor aéreo se deve, principalmente, à queda do poder aquisitivo da classe C, que nos anos anteriores representava parte significativa da demanda por viagens de lazer. Além disso, as viagens de negócios, que correspondem a dois terços do total, também vêm caindo. “A busca do público de lazer foi afetada pelos altos índices de desemprego e a procura das empresas caiu por causa da recessão”, afirma Sanovicz. “Se o ambiente de negócios brasileiro não está favorável, as companhias colocam o pé no freio e evitam viagens corporativas.” O resultado é uma queda também na oferta. A quantidade de voos domésticos encolheu 11,4% e os internacionais, 7,9%. Outra dificuldade que historicamente atinge o setor é a cobrança de impostos sobre o combustível das aeronaves brasileiras. Funciona assim: 35% do preço da tarifa correspondem ao valor do combustível das aeronaves. O que eleva esse percentual é a cobrança do ICMS no estado de origem e de destino. Em outros países, a cobrança do ICMS é unificada, o que torna a tarifa mais acessível. “Isso é o que faz uma passagem ser mais barata para fora do País do que para o Nordeste, por exemplo”, diz Sanovicz.
As companhias aéreas foram obrigadas a fazer ajustes para acompanhar a mudança do cenário. No ano passado, a TAM reduziu entre 6% e 9% a oferta de assentos em voos nacionais. Na Azul, o índice foi de 7%, enquanto na Gol a queda ficou entre 4% a 6%. Já a Avianca declarou que faria eventuais ajustes na oferta, dependendo do comportamento do mercado. “Foram feitos ajustes de malha e corte de custos em todas as áreas, com exceção de manutenção e segurança”, afirma Sanovicz. Além da revisão dos custos, algumas companhias desenvolveram novas estratégias para evitar o prejuízo. “Como elas não podem aumentar as tarifas de uma só vez, o que configura crime, criam mecanismos como a cobrança pelo despacho da bagagem”, diz Jorge Leal Medeiros, professor de Transporte Aéreo da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Firmar parcerias com empresas internacionais também é uma forma de não depender do mercado nacional retraído. “Para não ter aviões parados, as companhias colocam as aeronaves à venda ou para arrendamento”, afirma Medeiros.
Para reverter prejuízos, companhias aéreas diminuíram a frota, cortaram custos e investiram em parcerias internacionais
Uma decisão considerada acertada partiu da Azul, que transferiu 17 aviões de sua frota para a portuguesa TAP. A medida faz parte de um processo de redução de voos pelo Brasil. Embora as duas empresas funcionem separadamente, ambas são controladas pelo empresário David Neeleman e estão em processo de integração. A Azul também vem apostando em aviões de pequeno porte para rotas nacionais. “É uma forma de aumentar a capilaridade no mercado doméstico e economizar com a tripulação”, diz o especialista da USP. A Avianca, por sua vez, substituiu as aeronaves modelos Fokker por Airbus. “Eles são um pouco maiores, mais modernos e consomem menos combustível”, afirma Medeiros. Outra mudança que surpreendeu o mercado foi a queda do número de passageiros para os Estados Unidos, destino mais procurado pelos brasileiros. Eram 5,3 milhões de viajantes em 2015 e foram 4,4 milhões no ano passado. Em contrapartida, o volume para a Argentina cresceu 11,4% no mesmo período. A forma como as companhias devem driblar os efeitos da crise dependerá, segundo especialistas, da gestão e também de subsídios dos governos, como a redução do ICMS. Só assim o setor deixará de amargar prejuízos e voltará a decolar como antes.
INTEGRAÇÃO Dono da Azul e da Tap, o empresário David Neeleman aposta em aviões de pequeno porte para ganhar mercado no Brasil (Crédito:Rodrigo Dionisio)

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