13 de out de 2015

Leptospirose em cães exige maior avaliação veterinária

Recentemente, a Avipec e a MDS Saúde Animal promoveram palestra sobre o tema, dirigido a veterinários na Capital
Mitika K. Hagiwara - Médica veterinária e professora
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São Paulo Os clínicos veterinários de pequenos animais estão, de um modo geral, familiarizados com os aspectos clínicos e epidemiológicos da leptospirose canina, as várias opções de tratamento para os animais doentes e o modo de prevenir a doença e sua disseminação a outros cães e aos humanos. Entretanto, a leptospirose é uma doença complexa e, embora a vacinação contra essa doença esteja incluída no protocolo vacinal, são frequentes os casos em que, pelo histórico e pelas manifestações clínicas apresentadas, suspeita-se de leptospirose.
O teste de soroaglutinação microscópica (SAM), utilizado para a confirmação do diagnóstico de leptospirose, muitas vezes fornece resultados nos quais se observa a presença de anticorpos para mais de um sorovar de leptospiras patogênicas, às vezes em títulos bastante expressivos. A vacina confere proteção adequada? Trata-se de infecção por outros sorovares não incluídos na vacina? Quais os sorovares que podem infectar o cão? Há necessidade de vacinas contra esses sorovares? São algumas das questões frequentemente formuladas pelos clínicos veterinários e pelos proprietários dos animais.
No sentido de esclarecer essas dúvidas abordaremos de forma sucinta o que se conhece sobre a leptospirose entre os cães. Quantas espécies de leptospiras patogênicas existem e quais os sorovares que podem infectar o cão? A leptospirose é uma doença infecciosa causada por leptospiras, bactérias finas, flexíveis, filamentosas , espiraladas, com extremidades em gancho, pertencentes à Família Leptospiraceae, gênero Leptospira. São conhecidas na atualidade oito espécies de leptospiras patogênicas, isto é, aquelas que são capazes de colonizar os rins dos mamíferos: Leptospira interrogans senso strictu, Leptospira kirschneri, Leptospira borgpeterseni, L. Santarosai, L. Noguchi, L.Weilii, Leptospira alexanderi e Leptospira alstoni. Essas espécies são geneticamente distintas e englobam múltiplos sorovares, que diferem entre si na composição da membrana externa, composta de lipopolissacarídeos (LPS) e proteínas. A variação da composição de carboidratos que compõe os LPS é responsável pela diferença antigênica entre os sorovares. Os sorovares que apresentam antígenos em comum e que se superpõem compõem os sorogrupos. São conhecidos na atualidade mais de 200 sorovares de leptopiras patogênicas, distribuídos em 24 sorogrupos pertencentes majoritariamente a espécie Leptospira interrogans e em menor escala as espécies Leptospira grippotyphosa, e Leptospira borgpeterseni.
Hospedeiros de manutenção são aqueles nos quais as leptospiras patogênicas se adaptam e sobrevivem por longo período de tempo, sem que os animais apresentem os sinais clínicos decorrentes da infecção, em função do equilíbrio biológico natural entre o agente infeccioso e o hospedeiro. Em geral, os pequenos roedores, silvestres ou peridomiciliares, são os reservatórios dos diferentes sorovares já identificados. Os ratos são importantes reservatórios dos sorovares Icterohaemorrhagiae, Copenhageni, Pyrogenes entre outros, identificados ao redor do mundo. Aparentemente o sorovar Canicola se encontra adaptado ao cão, os sorovares Hardjo e Pomona aos bovinos e os sorovares Pomona e Tarassovi aos suínos. Virtualmente todas as espécies conhecidas de roedores, marsupiais ou mamíferos, incluindo o homem podem atuar como hospedeiro de manutenção para diversas leptospiras patogênicas.
Sobre hospedeiros acidentais, podemos avaliar que, uma vez excretadas na urina dos animais infectados, as leptospiras sobrevivem em terrenos úmidos, pântanos, córregos, lagos e estábulos com excesso de detritos e umidade por um longo período de tempo, de semanas a meses. Multiplicam-se bem em pH 7,2 a 7,4 e em temperaturas de 10 a 34ºC. São muito sensíveis ao pH ácido e a dessecação. Nessas condições, os animais suscetíveis que entram em contato com as leptospiras patogênicas podem ser infectados.
A infecção pode cursar silenciosamente, sem que haja manifestações clínicas ou resultar em grave doença fatal, na dependência da patogenicidade do sorovar Infectante e da resistência do hospedeiro.
Ocorrência no cão
O cão pode ser infectado por diversos sorovares de leptospiras como os sorovares Icterohaemorrhagiae e Copenhageni, em geral associados ao desenvolvimento de icterícia e grave comprometimento renal e o sorovar Canicola, cuja infecção pode resultar em doença renal aguda ou crônica. Outros sorovares como Grippotyphosa, Pomona, Bratislava, Pyrogenes causando nos cães infectados síndromes clínicas semelhantes ou em alguns casos grave hemorragia pulmonar associada à infecção leptospírica.
O isolamento e a caracterização sorológica e molecular de leptospiras a partir de fragmentos de rim ou da urina dos cães doentes constitui-se no modo de comprovar de forma inequívoca a etiologia da doença.
No Brasil foram isolados os sorovares Copenhageni, Icterohaemorrhagiae, Canicola e Pomona de cães doentes ou de cães de rua, aparentemente hígidos. Mais recentemente, foi relatado o isolamento a partir de um cão doente que havia desenvolvido icterícia e doença renal aguda a espécie Leptospira noguchi, caracterizado sorologicamente como pertencente ao sorogrupo Australis.
Sobre as evidências sorológi-cas da infecção de cães por leptospiras patogênicas, podemos avaliar que, apesar de haver poucos isolamentos de leptopspiras, comprovando a infecção de cães, existem evidências de infecções por outros sorovares patogênicos fornecidas pela reação de SAM, utilizada nos inquéritos sorológicos.
Diversos inquéritos sorológi-cos realizados no Brasil, nos últimos anos, revelam a presença de anticorpos aglutinantes contra uma ampla variedade de sorovares, com maior prevalência dos sorogrupos Icterohaemorrhagiae, (Sorovar Icterohaemorrhagiae e Copenhageni) Canicola e Pyrogenes nas regiões Sul e Sudeste. Em menor proporção, também foram encontrados cães reagentes a outros sorogrupos como Bratislava, Autumnalis, Grippotyphosa, Tarassovi, Australis, Cynopteri, Butembo. Já nas regiões Norte, Nordeste e Centro oeste foram encontrados reagentes aos sorogrupos Autumnalis, Pyrogenes, Canicola, Hardjo, Grippotyphosa, Copenhageni, Pomona.
O amplo espectro de sorovares de leptospiras contra os quais há o desenvolvimento de anticorpos aglutinantes, ainda que em títulos baixos (100 a 400, na maioria dos casos), indica a exposição dos cães a diversos sorovares de leptospiras no meio onde vivem, sem que necessariamente adoeçam, já que na maioria das vezes, tratavam-se de cães aparentemente sadios.
Mais informações
MSD Saúde Animal
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Conteúdo
Para ler mais sobre animais de estimação confira o Blog Bem-Estar Pet
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