19 de jul de 2015

Coronéis investigados por desvios no Bope continuam no cargo

Contrariando a praxe na Polícia Militar, comandantes não foram transferidos de seus postos – e não há explicação oficial para isso

Por: Leslie Leitão
O coronel Fábio de Souza, subchefe do Comando de Operações Especiais, ao qual o Bope é subordinado: laços com a alta cúpula da Polícia Militar
O coronel Fábio de Souza, subchefe do Comando de Operações Especiais, ao qual o Bope é subordinado: laços com a alta cúpula da Polícia Militar(Eduardo Naddar/Agência o Globo)
Era para ser uma operação de rotina. Na madrugada do dia 22 de junho, na favela da Covanca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, tropas do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) entraram em confronto com traficantes, trocaram tiros, mataram quatro e apreenderam fuzis, munição e drogas. Há duas semanas, em seguida à publicação em VEJA de uma reportagem que revela a ocorrência de desvios de conduta no batalhão de elite, a Corregedoria da Polícia Militar escancarou sua suspeita de irregularidade na operação na Covanca ao revistar casas e pertences de seis agentes, entre eles dois majores que teriam comandado a ação. Motivo da comoção: o sumiço de uma fortuna que pode chegar a 15 milhões de reais, enterrada em tonéis no alto do morro, fruto do tráfico de drogas. Os seis investigados foram transferidos para outros quartéis, a punição de praxe do Bope, mas, conforme revelado no site de VEJA pouco depois, no real comando da ação estava gente muito mais graúda. Em campo, a bordo de um "caveirão", subiu o morro o próprio comandante do Bope, o tenente-coronel Carlos Eduardo Sarmento. Na retaguarda, em um auditório do 18º Batalhão de Polícia Militar a 2 quilômetros da ação, acompanhava tudo por rádio e vídeo o subchefe do Comando de Operações Especiais (ao qual o Bope é subordinado), coronel Fábio de Souza. Sarmento e Souza permanecem em seus postos, intocados. Procurada, a Polícia Militar não deu explicações. Mas VEJA apurou que os dois têm fortes laços pessoais e comerciais com a alta cúpula da Polícia Militar.
O comandante do Bope Carlos Eduardo Sarmento: ele comandava a operação que terminou com o sumiço de uma fortuna
O comandante do Bope Carlos Eduardo Sarmento: ele comandava a operação que terminou com o sumiço de uma fortuna(PMERJ/VEJA)

Sarmento foi sócio durante anos de uma empresa de segurança privada (o que não é proibido), a SDS Sistemas de Defesa e Segurança Ltda. A seu lado na sociedade estava Wilman René Alonso, hoje chefe do mesmo COE onde o outro coronel, Fábio de Souza, é o número 2. Mais ainda: antes deles, a SDS tinha sido de outro mandachuva, o atual comandante-geral da PM, Alberto Pinheiro Neto. Os policiais costumavam inclusive utilizar instalações do Bope (o que, sim, é proibido) para dar cursos de gestão de segurança a empresas privadas - suas clientes. Fechando o círculo, na década de 2000 o próprio coronel Souza trabalhou na SDS de Pinheiro Neto. Só Alonso continua na sociedade, mas todos se tornaram grandes amigos.
"A Corregedoria da PM está fazendo o trabalho correto, que é investigar sob sigilo. Ao término da investigação, a população do Rio de Janeiro tem a minha garantia de que tudo será apresentado de forma transparente", diz o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. O inquérito conduzido pela Corregedoria investiga mais de setenta policiais. Dos dois envolvidos na coordenação da operação, Souza tem o currículo mais recheado, e não por citações meritórias. Entre idas e vindas, porém, nunca deixou de desempenhar funções de destaque. Durante as manifestações populares no Rio em 2013, foi exonerado do comando do Batalhão de Choque devido ao excesso de violência da sua tropa. "Castigo": a transferência para a escolta pessoal de Beltrame. Em janeiro de 2014, em um ímpeto premonitório, postou em uma rede social: "Está nas escrituras. Em abril de 2015 assumirei a PM". Quase acertou. Um ano depois, Pinheiro Neto chegou ao posto e devolveu Souza ao comando do Batalhão de Choque, onde teria feito carreira se VEJA não tivesse revelado, semanas depois, mensagens em que incitava a tropa à violência e fazia apologia do nazismo. Afastado de novo, retornou três semanas antes da operação na Covanca para ser o braço-direito do coronel Alonso, chefe do COE e sócio até hoje da aglutinadora SDS. Tanto Alonso quanto Souza foram promovidos a coronel, a patente máxima da polícia, pelo amigo comandante Pinheiro Neto. Sarmento era o próximo na fila, cotadíssimo para a lista de promoções a ser divulgada no fim de agosto. Agora, no olho do furacão, deve ter de esperar mais um pouco.

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