O ex-governador do Rio é acusado de
preparar dossiês contra juízes e o cerco se fecha com a
procuradora-geral pedindo de novo sua transferência para uma cadeia de
segurança máxima. O crime de desacato à Justiça, desta vez, ficou
evidenciado
Germano Oliveira
JOSE LUCENA/FUTURA PRESS; Walterson Rosa/Framephoto/Folhapress;
O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, não se emenda. Mesmo preso na
cadeia pública José Frederico Marques, em Benfica, Zona Norte da capital
fluminense, ele continua atuando no comando de organização criminosa.
Segundo investigações da Polícia Federal, Cabral é suspeito de articular
a confecção de dossiês contra seus adversários. A principal vitima
desta vez é o juiz federal Marcelo Bretas, que em setembro deste ano o
condenou a 45 anos de prisão por corrupção. Cabral vasculha informações
que possam desmoralizar o juiz e sua família. E, para isso, estaria se
utilizando de policiais para escarafunchar a vida do juiz e da sua
esposa, a também juíza Simone Bretas. Em nove meses, o sistema de
informações da Polícia Civil do Rio foi acessado dez vezes em busca de
ocorrências envolvendo os Bretas. A PF acredita que Cabral esteja
montando um dossiê contra o juiz federal. Somente no dia 26 de setembro,
seis dias depois de Bretas ter condenado Cabral, foram feitas oito
consultas na 22º DP da Penha. Outras consultas foram feitas nas
delegacias 105ª e 31ª, sempre por meio de policiais ligados ao grupo de
Cabral.
Prova de que o ex-governador quer levantar informações que
prejudiquem a imagem do magistrado aconteceu no dia 23 de outubro. Nesse
dia, houve uma audiência de Cabral com Bretas, na qual o ex-governador
disse que a família do juiz entendia bastante de caixa dois no setor de
joias, pois trabalhava com o comércio de bijuterias. Cabral é acusado
por Bretas de comprar mais de R$ 6 milhões em joias para sua mulher
Adriana Ancelmo com dinheiro sujo da corrupção. O juiz se sentiu
ameaçado e passou a suspeitar de que Cabral levantava informações contra
ele no submundo das delegacias de polícia no Rio, ainda comandadas por
policiais ligados ao esquema do PMDB. O governador Luiz Fernando Pezão
era vice de Cabral e o sucedeu no governo do Rio com seu patrimônio
eleitoral na época.
Em nova audiência com Bretas na quarta-feira 8, Cabral aproveitou que
estava frente a frente com o juiz e se explicou: “Não há nada meu
pessoal contra o senhor, dossiê, eu nunca fiz isso com ninguém. Acredite
em mim, na minha índole”, disse Cabral, ao que Bretas retrucou para
encerrar o assunto: “Eu não teria o que dizer, se é que existe alguma
coisa”, disse o juiz. Antes dessa audiência, Bretas ouviu o depoimento
do ex-subsecretário de Saúde César Romero. Ele contou que, certa vez, o
ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtez recebeu um jaleco com uma gravata
amarrada no pescoço, insinuando que isso seria uma ameaça de morte.
Bretas ironizou: “Ah, mas isso não é ameaça. Ameaça tem que vir por
escrito e com firma reconhecida no cartório”, disse o juiz. Segurança máxima
Em razão das ameaças, Bretas determinou que Cabral deixasse a cadeia
de Benfica e fosse transferido para um presídio federal de segurança
máxima. A transferência foi impedida pelo ministro do STF, Gilmar
Mendes. Agora, diante das suspeitas de que Cabral continua a gozar de
privilégios na cadeia no Rio, a procuradora-geral da República, Raquel
Dodge, também passou a recomendar que Cabral seja transferido com um
presídio federal. “A transferência impedirá que ele, mesmo preso, exerça
condição de líder de organização criminosa”, disse Dodge em seu
parecer. Ela afirma que o “sistema penitenciário do Rio tem tido
dificuldade para impedir que Cabral receba informações externas”. Para
ela, em uma unidade do sistema prisional federal “o aparato
institucional da segurança pública impedirá o recebimento pelo paciente
de informações inadequadas e privilégios irregulares”. Cabral teria até
mordomo particular na cadeia: o detento Alex receberia R$ 15,00 por dia
para fazer faxina na sua cela. Colaborou: Eliane Lobato
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