24 de abr de 2016

Bolsonaro, o meme de si mesmo

Irrelevante no Congresso, mas estridente nas redes sociais, o deputado quer disputar a Presidência – mas bravatas, como o elogio a um torturador, o deixam quase sem chances de vitória

FLÁVIA TAVARES

deputado federal Jair Bolsonaro (Foto: Sérgio Lima/ÉPOCA)
ÉPOCA acompanhou Bolsonaro, deputado pelo PSC do Rio e pré-candidato à Presidência da República, por dois dias na semana que antecedeu a votação. Sempre com o filho Eduardo, também deputado federal, a tiracolo, Bolsonaro é cumprimentado por porteiros e taxistas, e abraçado por transeuntes. Na terça-­feira pré-derrota de Dilma no plenário, com um terno preto de lã sob o sol do Cerrado, Bolsonaro caminhou ligeiro até o gramado em frente ao Congresso. Sem arfar, emendou desatinos sobre comunistas e tiranos, louvou o ditador chileno Augusto Pinochet e esconjurou Dilma, num fôlego só, como se tivesse pressa de mostrar seu repertório. Bolsonaro admitira, pouco antes, ser uma das razões da intolerância que levaram à instalação do muro erguido na Esplanada dos Ministérios, para separar manifestantes pró e antigoverno. O deputado gravaria ao lado da estrutura um vídeo para suas redes sociais, seu principal palanque. Ensaiou o discurso exaltado. Foi interrompido para selfies com uma dezena de integrantes dos grupos pró-­impeachment. Por mais de uma hora, usufruiu a fama que construiu com declarações como a que fez sobre Ustra.

"Se eu falasse manso, não estaria nos jornais amanhã. Observem as reportagens”
Jair Bolsonaro, ao ser questionado sobre o tom de suas falas mais jocosas
Depois do passeio, Bolsonaro voltou para a Câmara e para sua insignificância parlamentar. Bolsonaro não é consultado por próceres dos partidos, nunca teve influência nas legendas por que passou. Entre os parlamentares, é mero folclore – odiado como um degenerado por uns, afagado como um mascote por outros. Mas a irrelevância de Bolsonaro na realpolitik do Congresso não é o que transparece para parte da população. A mais recente pesquisa Datafolha o mostra com 8% das intenções de voto em 2018. Bolsonaro está tecnicamente empatado com o tucano Geraldo Alckmin e com o neopedetista Ciro Gomes. Com declarações como o apoio a Ustra, o deputado que “não tem problema em perder apoio” tem chances remotas de vitória no pleito.

Uma parcela dos eleitores, no entanto, se identifica com o histrionismo de Bolsonaro. Releva sua superficialidade e se apega ao ruído. “Ele é polêmico, mas está lutando por um Brasil mais honesto e sério”, diz, depois de um selfie com o deputado, um servidor da Agência Brasileira de Inteligência que não quis se identificar. Não incomoda a denúncia de que o irmão dele, Renato, era funcionário-­fantasma da Assembleia Legislativa de São Paulo e recebia R$ 17 mil por mês sem trabalhar? “Não.” Simples assim.

Esse simplismo de quem simpatiza com Bolsonaro é o que torna o deputado algo mais que uma piada sem graça. Na carência de saídas políticas sólidas, na onda de descrédito dos políticos, Bolsonaro prospera com um jeito apolítico. Nos Estados Unidos, isso foi um trunfo para o desastroso Donald Trump passar de bufão a ameaça real. Bolsonaro é um meme de si mesmo. Ecoa as convicções dos brasileiros mais reacionários. Exagera no barulho para disfarçar o oco. O lado externo de seu gabinete, contíguo ao do filho, parece uma página de boatos na internet. Ao lado da bandeira do Brasil e do Hino Nacional, há cartazes ridicularizando a Comissão da Verdade, que apurou crimes da ditadura militar. A notoriedade de Bolsonaro no plano nacional teve início quando ele começou a fazer discursos agressivos contra o “kit gay” e a educação sexual nas escolas, em 2011. Não foi uma ascensão acidental. Foi estratégia.

Bolsonaro tem 61 anos. Nasceu em Campinas, mas foi criado em Eldorado, interior de São Paulo. Ingressou na Academia Militar Agulhas Negras, no Rio, formando-se em 1977. Fez sua carreira por lá. Chegou a capitão da reserva. Em 1986, comandou um protesto contra os baixos salários dos militares. Foi preso por 15 dias. Dois anos depois, foi absolvido no Superior Tribunal Militar. Virou herói dos praças. Mas nunca conquistou a simpatia dos oficiais de alta patente. No mesmo ano de sua absolvição, candidatou-se a vereador no Rio, pelo Partido Democrata Cristão, o PDC. Foi eleito. Mais dois anos e Bolsonaro seguiria para o Congresso, elegendo-se deputado federal por sete mandatos consecutivos, por PPR, PPB, PTB, PFL e PP.

Jair Bolsonaro em 1988 (Foto: Luiz Pinto / Agência O Globo )
Até 2011, Bolsonaro foi o porta-­voz dos militares de baixo escalão no Congresso. Sob a orientação de seus assessores, decidiu ampliar seu escopo. A bandeira homofóbica foi a primeira que ergueu. Na luta contra o ensino de diversidade sexual nas escolas, Bolsonaro questionou a sexualidade de Dilma e disse que preferia um filho morto a um filho gay. Ofendeu a ex-ministra Maria do Rosário, dizendo que não a estupraria porque ela não merecia. Ofendeu a cantora Preta Gil, dizendo que filho seu jamais namoraria uma negra, porque eles não foram criados na promiscuidade. Defendeu a tortura, crime hediondo no Brasil, como forma de obter informações de traficantes de drogas. Sempre com uma terminologia chula, moldada para cair no gosto de quem se seduz com a aparência de “Esse aí fala as verdades sem medo”. Em 2014, Bolsonaro comentou a situa­ção do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, alvo de uma série de denúncias de tratamento desumano aos presos. “É só você não estuprar, não sequestrar, não praticar latrocínio que tu não vai para lá. Vai dar vida boa para aqueles canalhas?” Pressionado por assessores, respondeu: “Se eu falasse manso, não estaria nos jornais amanhã. Observem as reportagens e vocês vão ver”. O vídeo com a fala é um sucesso entre os que o consideram um bolsomito.

Vidraça de seu gabinete  em Brasilia (Foto: Flávia Tavares/ÉPOCA)
Sua postura é puro cálculo. Não que ele não acredite no que fala. Mas tudo é pensado para os ouvidos de quem se choca ou vibra com seu destempero. O trato dispensado por Bolsonaro a gays, por exemplo, não condiz com o de alguém que se dispõe a exterminar um filho homossexual. Nesses dias tumultuados de Brasília, Bolsonaro era acompanhado de perto por Karol Eller, promotora de eventos de 29 anos. Lésbica, Karol tem quase 220 mil seguidores no Facebook. Ela produz um minidocumentário para provar que Bolsonaro não é homofóbico. Karol inicia sua defesa com o condescendente “Ele é polêmico”. “O que ele não quer é um país dividido entre ricos e pobres, brancos e negros, héteros e homos”, diz. “Ele não é homofóbico, me tratou superbem.” Verdade. Os dois circularam pelo Congresso rindo, falando bobagem, abraçando-se. Pareciam pai e filha.

O que o deputado ganha, então, ao parecer tão raivoso? A empatia de uma população que está, ela própria, desinformada e com raiva. Na quarta-feira passada, Bolsonaro tinha, no Facebook, quase 2.905.000 seguidores – mais que a presidente Dilma e a presidenciável da Rede, Marina Silva. Entre janeiro e março deste ano, período de maior acirramento na disputa política, Bolsonaro ganhou mais de 760 mil seguidores. Muita gente está ali para criticá-lo, muitos são seguidores fabricados. Mas outros muitos encontram guarida em sua estridência. Ela faz Bolsonaro parecer mais popular do que de fato é. E essa aparência tem a consequência de empolgar pessoas que, sozinhas, não admitiriam simpatia por ele.
deputado federal Jair Bolsonaro (Foto: Sergio Dutti/Estadão Conteúdo)
Bolsonaro depende do alvoroço que cria para crescer porque sua atua­ção parlamentar é pífia. Se não está no alto de um caminhão chutando pixulecos, ele não tem muito mais a mostrar. Em junho do ano passado, depois de 25 anos ininterruptos no Congresso, pela primeira vez uma proposta de emenda constitucional feita por ele foi aprovada preliminarmente. Ele propôs que os votos computados nas urnas eletrônicas gerassem um recibo impresso – a um custo de R$ 1,8 bilhão por eleição para os cofres públicos. Para justificar a baixíssima produtividade ao longo da carreira parlamentar, declarou: “Mais importante que aprovar um projeto é evitar que um péssimo seja aprovado”.

Com essa filosofia e com a dedicação a alguns poucos temas polêmicos, Bolsonaro saltou, de 2010 para 2014, de 121 mil votos para 464 mil. Foi o deputado mais votado no Estado do Rio de Janeiro. “Dei muita entrevista para rádios do interior. O interior é o meu forte, o pessoal deixa eu falar à vontade, me dá uma hora no ar”, diz Bolsonaro. Ele conseguiu também eleger Eduardo, com 82 mil votos em São Paulo, gastando pouco mais que R$ 50 mil. Outros dois filhos entraram na política com discurso similar ao do pai: Flávio é deputado estadual no Rio (e trocou tiros com bandidos que tentaram assaltar seu carro na Barra da Tijuca) e Carlos vereador no Rio, ambos pelo PP.

A principal ambição política de Bolsonaro no momento é gozar do palanque que uma campanha presidencial oferece. Desta vez, não só para causar com suas posições. “A minha missão é estar na mesa nos debates presidenciais. Nas últimas eleições, só discutiam Pronatec e Bolsa Família. Temos de discutir as reservas minerais, a biodiversidade, o comércio com o mundo todo, turismo, quilombola, agronegócio, pecuária, malha ferroviária do Brasil, malha hidroviá­ria”, diz o deputado, com a fluência de quem tem quase três décadas de Congresso. Na esperança de se tornar mais que um fenômeno na internet, Bolsonaro tem viajado pelo país. Diz que vai com o dinheiro do partido e com sua verba de parlamentar. “Faço algumas palestras. Mas o importante é a recepção nos aeroportos, que chega a ter 1.000 pessoas. Fica legal nos videozinhos pro Facebook!”

2 comentários:

Anônimo disse...

Falando da "irrelevância" do deputado, de um blog que não tinha um único comentário sequer, em 18 dias de publicação. Cômico...

maromba Fernandes disse...

Irrelevante é esse blogue!!!
#BOLSONAROPRESIDENTE