Vítima da letal combinação entre falência do Estado e crescente domínio do tráfico, a Cidade Maravilhosa se torna refém da violência e do medo que se espalha por todas as classes sociais. Como esse inferno foi criado e o que pode ser feito para resgatar a paz

CONTROLE
Forças Armadas entram na Rocinha para tentar conter a guerra entre
traficantes. Na última década, o governo recorreu a essa solução 12
vezes (Crédito: Leo Correa)

As consequências desse poderio se mostram das formas mais perversas no dia a dia. O crime passou a controlar a circulação de carros e ônibus nas comunidades. Na quarta-feira 27, embora sete das nove escolas da Rocinha tivessem voltado funcionar, poucos alunos foram às aulas. Uma massagista foi demitida do emprego em uma clínica de Ipanema por ter faltado. “O patrão não está nem aí se eu tinha com quem deixar minha filha pequena ou não”, disse, chorando.

Em meio às intensas trocas de tiros, instituições de ensino próximas às comunidades vêm tomando precauções sem esperar pelas autoridades. A Escola Alemã Corcovado, em Botafogo, no mesmo bairro em que está localizado o Morro Dona Marta, primeiro a receber uma UPP, providenciou uma passagem subterrânea para os alunos caminharem do estacionamento às salas de aulas. Trata-se de uma garagem no subsolo usada para a saída de alunos e funcionários em situações adversas. A escola já chegou a suspender o recreio dos alunos em função dos tiroteios. Medidas como essas não são exageradas quando se toma por base o caso de duas crianças e um bebê atingidos por balas perdidas em julho desse ano. Mesmo fora das regiões de confronto, muitos cariocas deixam de sair à noite por medo, e a vida noturna na cidade sofre um violento baque. O restaurante Frontera, no Jardim Botânico, teve redução de 50% no movimento. Na sexta-feira 22, o Braseiro, “point” do Baixo Gávea, no bairro homônimo, vendeu dois barris de chope ao invés dos habituais sete. Outros pontos que outrora ferviam na noite carioca, como a Lapa, no Centro, e a Rua Conde de Bernadotte, no Leblon, agora sobrevivem apenas. Na Lapa, o centenário restaurante Nova Capela passou a fechar as portas mais cedo devido à violência da área. Ninguém do estabelecimento quis dar entrevista. “Com o movimento em baixa e sem segurança, quem pode aguentar?”, questiona o garçom de um bar vizinho, na região mais boêmia do Rio.

DESVIANDO DOS TIROS
Algumas iniciativas têm ajudado a população a se sentir menos insegurança. O professor Antonio Terzi, 41 anos, não costuma sair de casa sem consultar o aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT) para saber que caminho fará de sua casa até a escola dos filhos. Quando faz o trajeto, dependendo do dia, as crianças não usam o cinto de segurança. Isso porque ele teme ser assaltado e não ter tempo de tirar os filhos do veículo. “Não é fácil conviver com tanto medo e ameaças à vida. Gostaria de circular como uma pessoa normal, mas já incorporei o hábito da vigilância permanente”, afirma. A plataforma utilizada pelo professor foi criada pelo analista de sistemas Dennis Coli. Hoje, o aplicativo tem 600 mil usuários e um alcance entre 3 e 4,5 milhões de pessoas. Além desse, a ONG Anistia Internacional também criou, em julho do ano passado, o aplicativo Fogo Cruzado, que mapeia as regiões com maior número de tiroteios. Em um ano, a plataforma recebeu 9.174 notificações.

A FALÊNCIA DAS UPPs
Assolado por uma profunda desigualdade social, o Rio de Janeiro vive há décadas sob violência generalizada. As mazelas sociais, a corrupção entre governantes e as condições geográficas deram plenas condições para que o tráfico e as milícias se fortalecessem em regiões abandonadas pelo Estado. Desde a década de 1970, já sem o status de capital federal, a cidade se tornou ponto de partida na rota de distribuição de cocaína dos países andinos para a Europa. Com o apoio de “bicheiros” (os comandantes do clandestino jogo do bicho), traficantes passaram a abastecer a população com drogas ilícitas. Sem resistência policial à altura de sua ousadia, o tráfico se expandiu em larga escala nas favelas, que passaram a ser controladas por facções de criminosos e ficaram à margem do Estado. “Há uma falta de legitimidade de poder político e uma grave crise econômica. As UPPs, que foram vendidas como as joias da coroa, colapsaram. Todos esses fatores interferem na dinâmica da violência”, diz Julita Lembruger, socióloga da Universidade Candido Mendes e ex-ouvidora de polícia. As UPPs, sigla para Unidade de Polícia Pacificadora, foram criadas em 2008, a partir de experiências já existentes de policiamento comunitário. Nos primeiros anos, o modelo teve impacto positivo na redução dos índices de criminalidade e pareceu uma panaceia para o caos da segurança no Rio. Com o tempo, as UPPs faliram — por corrupção, falta de recursos ou mero despreparo. Das dez comunidades onde houve mais crimes violentos no Rio em 2016, seis contam com UPPs. Uma das razões para a ineficácia do programa é a complexidade das favelas e a ausência de outros serviços do Estado. Afinal, policiais não podem dar aulas, fazer partos e resolver os problemas da comunidade.

Pelo menos três facções controlam diferentes territórios: o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro e os Amigos dos Amigos. Em algumas regiões, esses grupos se aliam ao Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, e em outras convivem com as milícias. O poder de fogo desses grupos cresceu nos últimos anos. De acordo com um estudo do Instituto Sou da Paz, munições de calibre restrito, das quais fazem parte os fuzis, representam hoje 70% do total de apreensões de armas no Estado do Rio. Em 2014, eram 59%. “Os fuzis se tornaram uma espécie de símbolo de poder e ofensividade”, diz Silvia.


Ao longo da última década, o governo do estado do Rio recorreu 12 vezes a intervenções das Forças Armadas. “A situação mostra uma crise periódica e permanente. Faz-se uso de um modelo militarizado que não resolve o problema”, diz Ignácio Cano, sociólogo e coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “A presença dos militares tem um custo muito alto e não representa uma mudança de cenário no longo prazo.” Entre 2014 e 2015, a presença de soldados no Complexo da Maré por 15 meses custou aos cofres públicos R$ 600 milhões e a favela até hoje sofre com os mesmos problemas. Por trás da falência no combate ao crime está também a falta de investimento. Contas do governo estadual revelaram que gastos com “informação e inteligência”, fundamentais para o combate ao crime, foram reduzidos a zero no ano passado, quando a despesa com a segurança pública consumiu R$ 9,1 bilhões. Do total, R$ 7,68 bilhões foram destinados à administração geral, ou seja, pagamento de salários. “Policiais acreditam que o trabalho se restringe à lógica de confronto e dão pouca importância à inteligência”, diz Silvia. Para ela, com a entrada massiva de fuzis nas favelas, houve uma “bopetização” da polícia, neologismo que se refere à atuação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), famoso pelos métodos violentos. Os policiais que usam máscaras de caveira ao subir o morro são prova.


Gastos com “informação e inteligência” foram reduzidos a zero no ano passado, quando a despesa com a segurança pública no rio somou R$ 9,1 bilhões
Na quinta-feira 28, mesmo dia em que o ministro da Defesa Raul Jungmann anunciou que as tropas sairiam da Rocinha, as escolas reabriram e os alunos voltaram às aulas. As Clínicas de Família também funcionaram. Foram feitos reparos nos postes e limpeza de lixo nas ruas. O prefeito Marcelo Crivella afirmou que pretende investir R$ 15 milhões em serviços, incluindo a reforma de casas que estão cravadas de balas. É um sinal de que a cidade, ainda que devastada, poderá retomar sua rotina, ainda que com as marcas da violência escancaradas. Mas enquanto as autoridades forem negligentes e adotarem táticas ultrapassadas, o Rio continuará perdendo todas as batalhas para o crime.
O RIO SEM COMANDO

Há um vácuo no poder que agrava a violência em todo o Rio de Janeiro. O diagnóstico da socióloga do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Julita Lembruger, explica-se pela ausência de declarações e ações efetivas do governador Luiz Fernando Pezão e do prefeito Marcelo Crivella diante do caos que dominou a favela da Rocinha nas últimas semanas. No dia 22, no estopim da crise, enquanto moradores viviam momentos de pânicos com o confronto entre traficantes e homens das Forças Federais, o prefeito demorou quinze horas para se manifestar por meio de nota. Limitou-se a pedir que as pessoas evitassem áreas onde estivessem ocorrendo ações militares. Na quarta-feira 27, dez dias após o início dos conflitos, aos gritos de “sumido”, o prefeito visitou a Rocinha. O governador Pezão também se pronunciou apenas para dizer que sabia da invasão de traficantes, mas por cautela, desautorizou qualquer ação da polícia. “São afirmações inócuas, sem projetos, sem ideias. As favelas vivem um verdadeiro apagão”, diz Silvia Ramos, cientista social.
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